Tecnologia Social: Modelo sociotécnico de comunicação comunitária para desertos de notícias
Descrição
A Tecnologia Social desenvolvida consiste em um modelo sociotécnico de comunicação comunitária formado por quatro elementos inseparáveis: a plataforma digital RCL, as ações em letramento midiático, o protocolo de produção e validação de conteúdos e o processo participativo de implantação territorial.
O aplicativo sozinho seria apenas uma tecnologia digital. O que faz dele tecnologia social é o arranjo em que está inserido: sem a formação prévia não há quem produza, e sem o protocolo editorial não há informação confiável a circular.
O modelo opera em seis etapas:
1. Diagnóstico do ecossistema local de comunicação e articulação com escolas, organizações comunitárias e poder público do município.
2. Percurso formativo em letramento midiático, que trabalha comunicação comunitária, fotografia, jornal escolar, podcast e mídias digitais antes de qualquer publicação.
3. Habilitação dos participantes na plataforma, organizada em quatro perfis de acesso: leitor, produtor de conteúdo, editor e administrador.
4. Produção das pautas locais pelos próprios estudantes e moradores.
5. Validação por pares: toda publicação é identificada, registrada e aprovada por outro participante habilitado, o que estabelece rastreabilidade, revisão e responsabilização editorial.
6. Circulação pela plataforma, que usa geolocalização para apresentar ao leitor as notícias da própria cidade.
A plataforma foi desenvolvida em Flutter, funciona em Android, iOS e Web e opera também offline, armazenando as notícias no dispositivo do usuário — adequação necessária em áreas rurais e pequenos municípios com infraestrutura de internet precária.
O problema
Em pequenas cidades sem produção de jornalismo local — os chamados desertos de notícias —, o morador não tem onde se informar sobre o próprio lugar. O que circula vem do compartilhamento informal em aplicativos de mensagens ou dos canais oficiais da administração pública, e falta o que caracteriza a informação jornalística: apuração independente, identificação da fonte e possibilidade de contestação.
Pesquisas realizadas desde 2021 em municípios do interior fluminense — São José de Ubá, Laje do Muriaé, Macuco, São Sebastião do Alto, Comendador Levy Gasparian e Rio das Flores — encontraram o mesmo cenário: ecossistemas locais de comunicação frágeis, com pouca ou nenhuma fonte independente sobre o território. Em termos de diagnóstico, registramos ausência de políticas públicas locais para mídia e presença de veículos alternativos criados por moradores para circular notícias locais.
O problema não é local. Cerca de 47% dos municípios brasileiros são considerados desertos de notícias (Projor, 2025). Sem cobertura própria, uma obra parada, uma decisão da câmara municipal ou um problema no posto de saúde não viram assunto público — e a desinformação ocupa o vazio.
Construção da solução
A tecnologia nasceu da pesquisa que identificou o problema. Mapeados os desertos de notícias do interior fluminense, a pergunta seguinte foi o que uma universidade pode oferecer a um território sem imprensa: não um veículo produzido de fora, mas condições para que a própria comunidade produza informação sobre si.
A primeira decisão metodológica foi não entregar o aplicativo pronto — ele é a etapa final de um percurso formativo, e não o ponto de partida. Nas oficinas de letramento midiático realizadas com estudantes do ensino médio do Colégio Estadual Januário de Toledo Pizza, no distrito de Valão do Barro, em São Sebastião do Alto (RJ), no âmbito de um projeto de extensão financiado pela PROEX/UFF e pela AGIR/UFF, os participantes trabalharam antes comunicação comunitária, fotografia, jornal escolar, podcast e mídias digitais, e discutiram os efeitos da desinformação e a responsabilidade de quem publica. Só depois disso o aplicativo foi apresentado.
Depois de experimentado pelos estudantes, a continuidade da produção foi feita por uma bolsista de iniciação científica do ensino médio, moradora da própria comunidade, que segue usando a plataforma e colaborando com seu aperfeiçoamento.
O território mudou a tecnologia. A conectividade instável encontrada em campo levou à incorporação do funcionamento offline, com armazenamento das notícias no próprio dispositivo: a plataforma foi adaptada às condições materiais do lugar, e não transferida de forma padronizada.
O plano inicial previa atuação simultânea em seis municípios. A experiência mostrou que o vínculo com escolas, organizações comunitárias e poder público exige tempo e conhecimento das dinâmicas locais, e a implantação passou a ser progressiva, a partir de um território-piloto.
Participação e apropriação
Nas oficinas os participantes não foram apenas usuários: produziram os conteúdos e avaliaram a experiência, e as sugestões viáveis foram incorporadas ao aperfeiçoamento do aplicativo. As pautas foram definidas em rodas de conversa com os estudantes durante as oficinas de letramento midiático. Entre as mudanças incorporadas estão melhorias na grade para inclusão de fotografias, evitando deformação na imagem; criação de um sistema para os editores terem acesso a matérias disponíveis para revisão dos textos antes de sua publicação e aperfeiçoamento na versão IOS para identificação dos editores responsáeis por cada matéria publicada.
A apropriação está organizada pelos perfis de acesso: o leitor consome, o produtor publica e os editores aprovam a publicação sem passar pela equipe universitária — é esse perfil que define autonomia. A operação cotidiana não depende da equipe em campo: a bolsista moradora da comunidade segue alimentando a plataforma, e o aplicativo é conhecido fora da escola. A dependência que permanece é de suporte e formação — os canais com a UFF seguem abertos, e o desafio maior não é técnico: é sustentar o empenho em produzir conteúdo verificado.
Resultados e transformações
Como produtos, a experiência gerou o aplicativo RCL, multiplataforma e com código registrado pela universidade; o percurso de oficinas de educação midiática, e os conteúdos jornalísticos publicados pelos jovens da comunidade. Em números, foram realizadas sete oficinas, envolvendo 60 alunos de ensino médio e produzidas 43 publicações, todas sugeridas pelos estudantes participantes ou por eles produzidas, com destaque para a bolsista de ensino médio.
O resultado mais direto é a mudança de posição: moradores que antes apenas recebiam informação passaram a produzi-la e publicá-la, dando visibilidade a acontecimentos que não encontrariam espaço em veículos tradicionais — porque, nesses municípios, não há veículo tradicional que os cubra. A transformação aparece no que a comunidade escolhe contar.
Há transformação também na formação: os participantes desenvolveram competências de leitura crítica das mídias e de produção responsável de informação — checar antes de publicar, identificar-se como autor, responder pelo que se escreve. O percurso integrou pesquisa, extensão e desenvolvimento tecnológico, envolvendo estudantes de graduação, estudantes do ensino médio e profissionais de tecnologia da informação.
Importante destacar, contudo, que o impacto de fundo — mais fontes de informação e menos dependência de canais oficiais e de redes informais — não é imediato: depende de engajamento coletivo e se constrói no tempo.
Sustentabilidade e reaplicação
A sustentação da tecnologia é principalmente organizativa: depende de haver, no território, gente preparada para produzir e gente habilitada para editar. A participação da universidade continua necessária no suporte, na formação e na manutenção da plataforma, e a autonomia institucional e financeira ainda não está resolvida. A estratégia para reduzir essa dependência é a formação de multiplicadores locais, capazes de operar a plataforma sem a equipe da UFF, a ampliação do letramento midiático para além da escola e a retomada do diálogo com o poder público para um modelo de governança compartilhada.
A manutenção técnica exige hospedagem, moderação e atualização contínuas; a falta de equipamentos para gerar a versão definitiva para iOS chegou a adiar o acesso de parte dos usuários.
A reaplicação está preparada: a metodologia é documentada em nuvem a cada etapa, o código está registrado e o desenho é flexível a realidades diferentes que compartilham a ausência de jornalismo local. A condição para realização das próximas etapas inclui articulação prévia com escolas, organizações e poder público dos municípios interessados nessa tecnologia social.
Depoimentos
Fui responsável por produzir matérias e enviá-las para revisão durante um ano. Ao longo do projeto foram produzidas aproximadamente trinta notícias de interesse público para a comunidade local, como campanhas de solidariedade para vítimas das enchentes locais ocorridas em meados do ano de 2025, eventos de igrejas e escolas locais, projetos e ações comunitárias.
O resultado foi positivo, possibilitando o compartilhamento de informações verídicas com mais pessoas. Esse meio de comunicação é essencial para a população.
Maria das Graças Pereira de Lima Souza, bolsista de iniciação científica ensino médio (CNPq/UFF 2025-2026) e comunicadora comunitária
O projeto me ajudou muito a entender o lado do usuário que vai usar o aplicativo e como o meu conhecimento técnico pode ajudar as pessoas de verdade. Aprendi que a tecnologia não deve ser algo imposto, mas, sim, uma ferramenta que a própria comunidade pode mudar e usar do jeito que precisar. Foi muito importante sair da teoria e ver como o desenvolvimento de software pode combater a desinformação e fortalecer o papel da universidade dentro da sociedade.
João Pedro da Silveira Fontinele, desenvolvedor, graduando em Ciência da Computação e bolsista Proex (2024-2025) e Agir (2025-2026)
