A experiência aqui descrita vem sendo desenvolvida pelo Núcleo Fluminense de Estudos e Pesquisas (NUFEPE), cuja trajetória enquanto núcleo de pesquisa tem se caracterizado, desde sua fundação em 1994, pela atenção concedida à compreensão das formas de organização social, política, econômica e simbólica das denominadas “comunidades tradicionais” e as suas implicações na conformação dos direitos de cidadania, sobretudo no contexto da emergência das gramáticas do reconhecimento. Informados pelos saberes locais das múltiplas comunidades com as quais dialogou o NUFEPE, dentre elas as comunidades tradicionais do Morro das Andorinhas, Itaipu, Marambaia, Superagui, Grotão, TI Tupiniquim-Guarani, etc.; bem como as “comunidades epistêmicas” advindas da Antropologia, Sociologia, Ciência Política, Filosofia, Direito, Biologia Marinha, Oceanografia, gestores públicos e agentes públicos fomentaram o desenvolvimento de um conhecimento simultaneamente científico-político, inclusive no auxílio aos grupos minoritários nos seus pleitos pela reivindicação de direitos à permanência em seus territórios tradicionalmente ocupados. Em 1999, o NUFEPE abrigou uma das primeiras experimentações de inovação com a articulação de antropólogos, biólogos marinhos, advogados, agentes públicos do IBAMA e pescadores na elaboração de um conhecimento acadêmico e articulação política sobre (e para) a gestão da criação de uma Reserva Extrativista Marinha (RESEX-MAR) em Itaipu e Arraial do Cabo. Outras experiências dessa natureza foram replicadas na Marambaia, Superagui, Itaipu, Grotão, Sacopã, TI Tupiniquim-Guarani, Zacarias (em Maricá), dentre outros. As tecnologias sociais produzidas pelo NUFEPE têm como premissa a produção de uma “antropologia implicada” (e, portanto, não aplicada nos termos da tradição funcionalista). Ela se nutre de uma tradição pragmatista – ao considerar como alicerce analítico a capacidade crítica, reflexiva e competente dos atores – e da denominada antropologia da ação nos termos emprestados por Sol Tax e, posteriormente, reelaborado por Roberto Cardoso de Oliveira, inscrevendo-se em uma tradição antropológica transformadora, inovadora e crítica-reflexiva. A relação entre esses conhecimentos e as formas de intervenções políticas-científicas tem contribuído para a conformação de tecnologias sociais eficientes para a sintonização e articulação entre as demandas formuladas pelos grupos tradicionais e a sua aderência às complexas linguagens da burocracia estatal. A última experiência (2017) de articulação entre esses saberes se deu no Quilombo da Marambaia, cuja experiência contou com os seguintes parceiros: o Núcleo de Pesquisas sobre Práticas e Instituições Jurídicas (NUPIJ), vinculado a Faculdade de Direito da UFF; a Associação da Comunidade Quilombola da Ilha da Marambaia; a Fundação Cultural Palmares e a Doca-Portos. A inovação da experiência residiu na tentativa de articular os conhecimentos dos quilombolas, dos agentes estatais e da empresa de modo a viabilizar a produção de um universo de discussão e emancipação dos atores locais na conformação das decisões sobre as políticas de compensação. A produção de relatórios técnicos, consultorias às associações, articulação com o poder público e a criação de dispositivos normativos em parceria com o legislativo, tornam-se ferramentas de análise sociológica e antropológica, bem como instrumentos de inovação social confeccionados em estreita colaboração com os grupos locais.