CineLASMUN: Tela Preta, Vozes Negras

Tecnologia Social: Cineclube dialógico de educação popular em saúde e letramento racial

Descrição

A Tecnologia Social desenvolvida consiste em uma metodologia de educação popular em saúde que utiliza o audiovisual como dispositivo de sensibilização, diálogo e construção coletiva de conhecimento sobre saúde e desigualdades raciais, no encadeamento cinema → identificação → diálogo → problematização → construção coletiva → reflexão sobre a realidade → formação para práticas antirracistas.

O que se reaplica é esse encadeamento, não a lista de filmes. Ele não exige equipamento complexo: bastam uma obra pertinente ao tema, um espaço de exibição coletiva e alguém disposto a mediar a conversa em vez de conduzi-la.

O ciclo se organiza em sete etapas:

1. Definição do tema, a partir das demandas observadas junto aos participantes e dos objetivos formativos — saúde da população negra, racismo, identidade, violência, direitos e determinantes sociais da saúde.
2. Seleção da obra audiovisual entre produções com protagonismo negro que permitam problematizar desigualdades raciais e condições de vida e saúde.
3. Mobilização e divulgação junto a estudantes, profissionais e comunidade externa, pelos canais institucionais e pelas redes sociais do projeto.
4. Exibição coletiva, seguida de roda de conversa mediada pela equipe, em que a narrativa da tela é relacionada a experiências sociais concretas.
5. Problematização, momento em que os participantes trazem percepções, vivências, questionamentos e sugestões para os encontros seguintes.
6. Avaliação ao final de cada encontro, sobre conteúdo, metodologia e contribuição da atividade para a formação.
7. Sistematização dos aprendizados, demandas e sugestões pela equipe, que orienta a escolha do tema seguinte.

O problema

O racismo opera como determinante social da saúde: afeta o acesso aos serviços, a qualidade do cuidado recebido e a saúde física e mental da população negra. Entre as mulheres negras, a desvantagem nos indicadores de saúde, no acesso e na qualidade da assistência é histórica e não circunstancial — resulta de processos estruturais que combinam racismo, sexismo e assimetrias socioeconômicas, e que atingem também a saúde mental, a autoestima, o acesso à informação e o exercício de direitos.

Esse conjunto raramente é discutido fora da dimensão biomédica. Nos serviços e na formação em saúde faltam espaços em que racismo estrutural, letramento racial, identidade, violência e direitos sociais sejam tratados a partir da experiência de quem os vive, e não apenas como conteúdo de aula. Sem esse espaço, o profissional se forma sem reconhecer o racismo como determinante do quadro que atende, e a população negra não encontra onde nomear coletivamente o que atravessa seu cuidado.

É a essa ausência de espaço de escuta e debate entre universidade e comunidade que a experiência responde.

Construção da solução

A escolha do cinema como meio não foi estética, e sim metodológica: o audiovisual produz identificação e sensibilização antes de produzir argumento, e é dessa identificação que a conversa parte — o que aproxima universidade e comunidade sem exigir do participante repertório teórico prévio. Uma exposição sobre racismo em saúde mantém a distância entre quem fala e quem escuta; uma narrativa em tela desfaz essa posição.

O CineLASMUN foi criado em 2026, por iniciativa de estudantes e docente orientadora da Liga Acadêmica de Saúde e Bem-Estar da Mulher Negra (LASMUN), em Rio das Ostras (RJ), e já realizou três edições, com temas como racismo estrutural a partir da perspectiva das empregadas domésticas negras, sexismo, violência patrimonial, trauma transgeracional e violência doméstica, e saúde mental.

A opção por obras com protagonismo negro é constitutiva do método. São elas que permitem reconhecer na tela situações de desigualdade racial que os participantes relacionam às próprias vivências e ao que observam nos serviços de saúde, e é essa relação que a roda de conversa transforma em discussão sobre determinantes sociais, direitos e cuidado.

A composição do grupo também moldou a experiência. Estudantes de diferentes cursos da saúde e das ciências sociais, docentes e público externo passaram a compor as sessões, e a diversidade de repertório na roda tornou-se parte do método, e não um efeito colateral dele.

Participação e apropriação

Hoje quem define o tema e escolhe a obra é a equipe. A comunidade participa como público das sessões e, dentro da roda de conversa, com peso real: é ali que os participantes trazem relatos, questionamentos e sugestões de tema, e é do registro dessas sugestões que sai a pauta do encontro seguinte. A influência existe, portanto, mas é indireta — a decisão continua com a equipe.

Ampliar essa participação para a definição dos temas, a escolha das obras e o planejamento das atividades é a mudança que o projeto se propõe a fazer.

A metodologia é simples o bastante para ser operada por quem não pertence à equipe: exibir, mediar, escutar e registrar não exigem formação técnica específica. O que falta é o roteiro escrito — a sistematização da metodologia, com critérios de escolha das obras, preparação da sessão, questões disparadoras e instrumentos de avaliação, é a condição para que outro grupo a conduza sem acompanhamento.

Resultados e transformações

Nas edições realizadas, o projeto reuniu 33 inscritos em abril e 56 em maio, num total de 89 inscrições.

O alcance extrapolou o entorno da universidade. As sessões reúnem estudantes de cursos como Serviço Social, Psicologia e Enfermagem e público externo — pessoas idosas, homens brancos, quilombolas, mães e crianças —, inclusive de localidades distantes do campus. Para uma discussão sobre racismo em saúde, a composição do público é em si um resultado: a roda deixa de ser conversa entre pares e passa a reunir quem vive o problema de posições diferentes.

Os efeitos precisam ser lidos em três níveis. Os resultados imediatos são as sessões realizadas e os participantes alcançados. Os efeitos são o que os participantes relatam ao fim de cada encontro. Os impactos sobre práticas e relações são mais duradouros e ainda não contam com instrumentos sistemáticos de avaliação que permitam afirmá-los.

Para os estudantes, a experiência é formativa: coloca a equidade racial dentro da prática profissional que estão aprendendo, e não ao lado dela.

Sustentabilidade e reaplicação

A estrutura de custo é baixa: recursos audiovisuais disponíveis institucionalmente, espaço de uso coletivo e trabalho de estudantes e docentes. Nenhuma despesa indispensável depende de financiamento externo para que uma sessão aconteça — o que exige recurso é ampliar divulgação, infraestrutura e produção, e é isso que hoje limita o alcance, mais do que a metodologia.

A continuidade depende da manutenção da equipe e da articulação com parceiros. A rotatividade de estudantes de diferentes cursos funciona como mecanismo de renovação, mas sustentar a participação da comunidade ao longo das edições e chegar a públicos externos à universidade permanece o desafio mais persistente.

A reaplicação é viável em escolas, universidades, unidades de saúde e associações comunitárias, com a obra e as questões disparadoras adaptadas ao público e ao território. Duas condições precisam ser atendidas antes: a sistematização da metodologia em roteiro, hoje inexistente, e a articulação com organizações comunitárias e instituições de saúde e educação que assegurem a presença do público que a discussão pretende alcançar.

Tudo certo!