Geo-História Niterói
Tecnologia Social: Metodologia de construção de atlas geo-histórico digital.
Descrição
A tecnologia social consiste em um método, replicável para qualquer território, para a construção de atlas geo-históricos digitais, composto por cinco etapas:
Reunião do acervo: cartografia histórica e contemporânea, fotografias, livros, textos e outros documentos sobre a formação do território.
Extração, processamento e estruturação da base de dados, organizada por período histórico.
Publicação do banco de dados em mapa interativo na web.
Recepção do público: retorno e contribuições de quem acessa o material, incorporados ao acervo.
Atualizações eventuais da base.
A cada novo território incorporado, o ciclo se repete, convertendo acervos em memória consultável por quem não é pesquisador.
O problema
Niterói acumula um acervo denso sobre a formação e as transformações do seu território: mapas históricos, plantas cadastrais, fotografias, gravuras, planos urbanísticos, censos e documentos manuscritos. Esse material existe, mas está espalhado por instituições, coleções e publicações diferentes, cada uma com sua regra de acesso e seu suporte.
A dispersão produz três efeitos. O primeiro é de acesso: quem quer saber como a cidade foi construída precisa localizar as fontes uma a uma, o que exige tempo, deslocamento e familiaridade com arquivos. O segundo é de leitura: mesmo reunidos, mapas de séculos diferentes não se comparam sem georreferenciamento, e a transformação do território — o aterro, o desmonte do morro, a abertura da via — não fica visível. O terceiro é de alcance: sem tradução para linguagem corrente, o material segue circulando entre pesquisadores.
O resultado é que a memória territorial do município fica indisponível justamente para quem vive nele: moradores, professores da educação básica e estudantes.
Construção da solução
A resposta partiu de uma decisão de método: tratar a história do território como objeto cartográfico, e não apenas textual. A metodologia se apoia na tradição da Geografia Histórica, articulando a interpretação do espaço com a investigação direta em fontes primárias, e organiza o material em periodização de longa duração, do século XVI ao XXI, que privilegia os períodos densos — os acontecimentos capazes de alterar significativamente a organização espacial da cidade, como intervenções urbanísticas, aterros, desmontes de morros e transformações político-administrativas.
O acervo foi construído em etapas: levantamento sistemático de fontes primárias e secundárias, digitalização, catalogação, georreferenciamento e padronização cartográfica, com associação à cartografia contemporânea — é essa associação que permite comparar o mesmo lugar em momentos diferentes.
O trabalho reuniu Geografia, História, Cartografia, Arquitetura, Ciência da Informação e Computação, envolvendo docentes, estudantes de graduação e pós-graduação, bolsistas e instituições parceiras, com apoio da Prefeitura Municipal de Niterói.
Desde o lançamento, a plataforma vem sendo ajustada pelo uso: as atividades de extensão e as contribuições de estudantes, professores, pesquisadores e moradores revelam dificuldades de navegação, demandas por novos conteúdos e possibilidades de aprimoramento das funcionalidades.
Participação e apropriação
As decisões de curadoria — que fontes entram, como são datadas e como são interpretadas — são da equipe do projeto: é o rigor documental que sustenta o Atlas, e ele não está aberto a deliberação. Esse limite é reconhecido pela própria equipe.
A participação acontece em outro ponto, e é efetiva: no uso e na devolução. O projeto de extensão foi desenvolvido com estudantes da rede pública a partir da realização de roteiros geohistóricos pela cidade. Durante as atividades, percebemos que muitos alunos conheciam pouco sobre a história e as transformações da própria área onde estudavam e circulavam diariamente. Lugares, edifícios e elementos da paisagem que faziam parte de seu cotidiano eram conhecidos, mas nem sempre compreendidos em sua dimensão histórica e geográfica.
A troca é de mão dupla: a universidade oferece fontes e ferramentas de análise espacial, e os participantes trazem memórias, percepções e conhecimentos sobre os lugares em que vivem — material que a documentação de arquivo não registra.
Resultados e transformações
Desde o lançamento não oficial, em junho de 2025, o Atlas registrou mais de 8 mil visitas em doze meses de operação, com média aproximada de 530 visitas mensais. Para construir a base de dados, nossa equipe consultou livros, mapas, fotografias, pinturas e imagens aéreas e de satélite. Hoje, o acervo do projeto já reúne mais de seis mil arquivos, que aos poucos estão sendo disponibilizados ao público.
O acervo passou a existir em outro regime: material antes disperso entre instituições e restrito a quem sabia procurá-lo está reunido em um único endereço público e gratuito, comparável no tempo e consultável de qualquer dispositivo conectado.
O reconhecimento institucional acompanhou o uso. Em 2025, o projeto foi apresentado no curso Conhecendo a História de Niterói, promovido pelo Instituto Histórico e Geográfico de Niterói em parceria com a Secretaria Municipal de Educação; em 2026, a equipe foi novamente convidada, para sessão especial em homenagem ao Dia do Geógrafo.
A plataforma tem sido procurada para consulta sobre o passado da cidade, com finalidade de pesquisa e de atividades de turismo ligadas à economia criativa. Uma contribuição inesperada veio de usuários mais velhos, que passaram a consultar a plataforma em busca de informações sobre antigas delimitações de propriedades e ocupações do território, inclusive relacionadas a litígios de terras ocorridos no passado. Essas consultas mostraram que os mapas históricos despertavam interesses que iam além daqueles inicialmente previstos pela equipe. O uso em educação patrimonial, formação de professores e planejamento territorial permanece como possibilidade, e não como resultado observado.
Sustentabilidade e reaplicação
A sustentação se divide em três planos. A tecnológica está resolvida: tecnologias livres reduzem custos, permitem adaptação e barateiam a hospedagem. A institucional é parcial: a articulação com a Prefeitura, grupos de pesquisa e projetos de extensão abriga o trabalho, mas o suporte próprio é limitado. A financeira não existe: não há recursos autônomos; a atualização depende de vínculos renovados ano a ano. Hoje a plataforma é mantida pelo grupo de pesquisa em "Geovisualização Histórica" (IGEO/UFF), com foco em visualizar a geo-história e aprimorar a base de dados.
O desafio é a divulgação: acervo que a população ignora segue indisponível na prática.
A reaplicação não decorre das tecnologias livres, e sim da sistematização das etapas: levantamento e seleção de fontes, digitalização, catalogação, georreferenciamento, organização do banco de dados, construção das camadas históricas, publicação e interação com usuários. Esse encadeamento se adapta às características de cada município.
Projetos executados
Experiência de Tecnologia Social da UFF, importada do Portal TS. Situação: Em andamento. Período no catálogo: 2026. Local: campus Niterói, RJ. Edital de origem: Edital de Chamamento 2026. ODS: 11 – Cidades e comunidades sustentáveis; 4 – Educação de qualidade; 8 – Trabalho decente e crescimento econômico; 19 – Arte, Cultura e Comunicação.