Implantação de Banheiro Seco no Espaço Comunitário Amaravista.

Tecnologia Social: Processo participativo de construção e manejo de banheiro seco compostável em espaço comunitário

Descrição

A Tecnologia Social desenvolvida consiste em um banheiro seco compostável de recipiente móvel construído em mutirão, com separação de urina e fezes e destinação de ambas a sistemas de tratamento ecológico no próprio terreno — um conjunto que reúne a solução de saneamento, o modo de construí-la coletivamente e o uso do equipamento como recurso de educação ambiental.

O sistema funciona sem água e sem ligação à rede de esgoto. A cabine tem dois assentos com funções distintas: a urina é conduzida a um círculo de bananeiras, que absorve o nitrogênio e o devolve à vegetação; as fezes caem em recipiente móvel e seguem para um sistema de compostagem fechado, onde se transformam em adubo. O modelo corresponde ao banheiro seco compostável com recipiente móvel descrito por Del Porto e Steinfeld (2000), escolhido pela execução simples, pelo custo baixo e pela eficiência.

A construção é parte da tecnologia, não uma etapa prévia. Estrutura em toras de eucalipto tratado sobre fundação direta, vedação e assoalho em tábuas e cobertura em telhas onduladas leves compõem um sistema construtivo que pessoas sem formação técnica conseguem executar em três dias, sob orientação, aprendendo o funcionamento do saneamento enquanto o levantam.

Uma placa explicando o funcionamento do sistema foi instalada posteriormente no local instruindo os visitantes sobre o uso correto dos assentos.

O problema

Na divisa entre a parte urbanizada e o mangue do entorno da Laguna de Itaipu, na região oceânica de Niterói (RJ), o Espaço Comunitário Amaravista recebe visitantes, estudantes, coletivos e outros grupos para atividades de educação ambiental, com dois viveiros, horta, pomar e centro de compostagem. Faltava ali o mais básico: banheiro.

A ausência de instalação sanitária não era um detalhe de conforto. Limitava o tempo de permanência dos grupos, restringia o tamanho das turmas que o espaço podia receber e impedia a ampliação das atividades — uma visita escolar de meio período depende de haver onde ir ao banheiro.

Duas condições fechavam as saídas convencionais. O terreno não é conectado às redes públicas de abastecimento de água nem de esgotamento sanitário, o que inviabiliza um sanitário comum. E o espaço é mantido com verbas de projetos e trabalho voluntário, sem recursos para obra de infraestrutura. A solução precisava funcionar sem água encanada, sem rede de esgoto e com orçamento mínimo — e, de preferência, ensinar alguma coisa a quem a usasse.

Construção da solução

A resposta veio do encontro entre duas frentes: a equipe do Instituto Floresta Darcy Ribeiro (AmaDarcy), que gere o espaço, e a arquiteta e permacultora Ana Carolina Dias Diório, colaboradora em atividades de ensino e extensão da UFF. Do diálogo entre elas saiu a opção pelo banheiro seco — também chamado sanitário ecológico —, que dispensa água para funcionar e transforma o que seria poluente em adubo.

A decisão foi também pedagógica. Como o Amaravista existe para fazer educação ambiental, escolheu-se um sistema de saneamento que pudesse ser mostrado e explicado: o próprio banheiro vira objeto de aula sobre ciclagem de nutrientes e tratamento de efluentes.

O projeto arquitetônico foi desenvolvido antes da obra, em diálogos, estudos e análises entre a equipe do espaço, as professoras da disciplina de Planejamento em Permacultura da UFF e a arquiteta. Optou-se por estrutura em toras de eucalipto tratado, vedação e assoalho em tábuas e cobertura em telhas onduladas leves — materiais escolhidos por permitirem execução rápida, limpa e barata e por serem técnicas que a arquiteta já dominava, condição para que o mutirão funcionasse como troca de saberes e não como obra assistida.

A construção foi organizada em um mutirão. A fundação direta — pilares de eucalipto enterrados em valas de 60 cm preenchidas com concreto — foi executada por voluntários do Espaço quinze dias antes, para garantir a cura do concreto. A execução durou três dias, em junho de 2025: o primeiro (26/06), no âmbito da disciplina, abriu com uma dinâmica sobre permacultura, arquitetura e saneamento, inspirada no círculo de cultura de Paulo Freire; o segundo (27/06) foi dedicado à construção da estrutura e do assento; o terceiro (28/06), ao telhado e aos sistemas de tratamento dos resíduos.

Participação e apropriação

A demanda não foi identificada de fora: partiu de quem usa o espaço. A escolha da tecnologia foi construída em diálogo direto entre a equipe do AmaDarcy e a arquiteta, e não apresentada pronta à comunidade. A necessidade foi apontada pela equipe da ONG e a escolha do modelo e da localização foi feita em conjunto entre a equipe do espaço, as professoras da disciplina e a arquiteta participante.

A obra em mutirão consolidou essa posição: a fundação foi executada pelos próprios voluntários do Espaço, e a turma e os voluntários tiveram protagonismo nos três dias de construção, com a arquiteta na orientação técnica.

O uso cotidiano hoje independe da universidade — é a equipe do local que conduz as visitas guiadas e realiza o manejo do sistema. A equipe do espaço participou da construção e planejamento da atividade ficando, ao longo do processo, apta a manter o sistema em funcionamento e realizar as manutenções que sejam necessárias.

Resultados e transformações

Antes da implantação, a ausência de banheiro limitava o tamanho dos grupos e o tempo que podiam permanecer no Amaravista, e as atividades se organizavam em torno dessa restrição. Depois, o espaço passou a receber grupos maiores, com mais conforto e sem depender de estrutura externa.

A segunda mudança é de outra ordem. O banheiro deixou de ser apenas infraestrutura e passou a integrar as atividades de educação ambiental, como exemplo visível de saneamento ecológico: quem visita vê o círculo de bananeiras, o recipiente móvel e a compostagem em funcionamento, e não uma explicação abstrata sobre ciclagem de nutrientes. Observou-se que o sistema atraiu a atenção de visitantes e voluntários, funcionando como uma ferramenta de educação ambiental, como foi planejado inicialmente.

O interesse gerado pela obra também se converteu em demanda: outras instalações semelhantes passaram a ser pedidas por pessoas que conheceram o funcionamento do banheiro implantado.

A sistematização da experiência ainda está por fazer. Os parâmetros construtivos, os passos do mutirão e as rotinas de manejo existem na prática e no conhecimento de quem participou, mas ainda não foram registrados em documento que permita a outro grupo reproduzi-los sem acompanhamento.

Sustentabilidade e reaplicação

O que sustenta o sistema é a independência de infraestrutura: sem abastecimento contínuo de água nem conexão à rede de esgoto, o custo operacional é baixo em comparação com soluções convencionais, e a manutenção se resume ao manejo periódico feito pela própria equipe.

A construção enfrentou os limites de um espaço mantido por verbas de projeto e trabalho voluntário, e a obra teve de ser executada em local sem água nem esgoto disponíveis.

A reaplicação pede condições semelhantes às do Amaravista: ausência de rede de esgoto, área disponível para os sistemas de tratamento, equipe responsável pelo manejo continuado e acesso a orientação técnica e aos materiais. A prioridade declarada é publicar os detalhes técnicos em cartilha ou publicação técnica — o que falta para que a demanda já existente por instalações semelhantes seja atendida sem a presença da mesma equipe.

Tudo certo!