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Adalberto Müller Junior

Instituto de Letras · UFF

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Rádio Letras

Primary field: Ciências Humanas Secondary field: Linguística, Letras e Artes Tecnologias Baseadas em Conhecimento Tradicional Tecnologias Digitais Tecnologias Sociais Híbridas #Comunidades urbanas periféricas #Cultura e Identidade #Educação e Formação #Juventude #ODS 13 #ODS 19 #ODS 20 #ODS 4 #Popularização da ciência e tecnologia #Povos tradicionais #Tecnologia Social

Tecnologia Social: Metodologia participativa de comunicação pública da ciência por radiofonia aberta

Descrição

A Tecnologia Social desenvolvida consiste em uma metodologia participativa de comunicação pública da ciência e da cultura, baseada na produção colaborativa de conteúdos radiofônicos de acesso aberto, que articula universidade, pesquisadores, artistas, escritores, educadores e representantes de comunidades tradicionais para ampliar a circulação de conhecimentos acadêmicos e de saberes socialmente produzidos.

A tecnologia não é o podcast. O podcast é o produto; a tecnologia é a interface entre a pesquisa científica, os artistas e escritores e os intelectuais indígenas e quilombolas, construída em um meio que valoriza a oralidade — e o protocolo que faz essa interface funcionar de forma repetível.

O Modelo Rádio Letras organiza a produção em nove etapas:

1. Definição da pauta, a partir de demandas acadêmicas e sociais, e identificação dos convidados.
2. Pesquisa e preparação: levantamento bibliográfico e preparação dos participantes.
3. Construção do roteiro, com elaboração colaborativa das perguntas e das estratégias de mediação.
4. Gravação, em estúdio ou fora dele.
5. Edição, com tratamento técnico do áudio e adequação da linguagem.
6. Validação: revisão do conteúdo pelos participantes, quando pertinente.
7. Publicação gratuita no site do projeto e em plataformas de streaming.
8. Divulgação por redes sociais e redes institucionais.
9. Avaliação, com acompanhamento de audiência, retorno dos participantes e alcance social.

A comunicação que o modelo busca não é unilateral, da universidade para a sociedade, mas de mão dupla entre universidade, sociedade e comunidades tradicionais. É a etapa de validação que sustenta essa diferença: ela devolve ao participante o poder de dizer se o que será publicado corresponde ao que ele disse.

O problema

A produção científica e cultural das universidades brasileiras é ampla, mas circula pouco fora dos seus próprios circuitos. A pesquisa em Letras, Linguística e Literatura — que oferece ferramentas para compreender questões culturais, históricas e sociais — costuma chegar ao público em artigo, livro acadêmico e evento científico, formatos que exigem do leitor o mesmo repertório de quem os produz.

O problema é mais grave quando o conhecimento em questão não nasceu na universidade. Saberes de povos indígenas e de comunidades tradicionais, transmitidos majoritariamente pela oralidade, permanecem sub-representados nos meios convencionais de divulgação científica, que privilegiam o registro escrito. Não se trata apenas de alcance: a produção do conhecimento envolve disputas sobre quais histórias são contadas e quais vozes encontram espaço no debate público.

O resultado é duplo. O público não especializado perde acesso a conhecimento que o ajudaria a interpretar o próprio mundo, e as formas de saber que não cabem no formato acadêmico ficam de fora da conversa.

Construção da solução

A Rádio Letras não começou do zero. Nasceu a partir da experiência do Laboratório de Imagem e Som da UFF (LIS/UFF), criado em 2010 com apoio da FAPERJ para desenvolver formas audiovisuais de divulgação científica, e que dispõe de estúdio isolado acusticamente e de equipamentos de captação e edição de som e imagem. O laboratório deu o suporte técnico; o que faltava era o formato.

A escolha da radiofonia, em 2025, respondeu a três condições de uma vez. O podcast tem custo de produção baixo e publicação simples em plataformas gratuitas de streaming, o que torna a produção sustentável para um laboratório universitário. O áudio dispensa a leitura e alcança quem escuta enquanto faz outra coisa, ampliando o público para além do especializado. E, decisivamente, o som corresponde à forma como os saberes ancestrais indígenas e afro-brasileiros são preservados e transmitidos: pela oralidade. Levar esses saberes a um meio de oralidade não é escolha estética, é adequação ao objeto.

A programação foi construída em torno dessa aposta. Ao lado de pesquisas em literatura, linguagem e temas contemporâneos, os programas dão destaque às cosmologias dos povos indígenas do Brasil e aos saberes ligados à sustentabilidade e ao enfrentamento da crise climática, com pesquisadores, lideranças e intelectuais indígenas participando como interlocutores, e não como objeto de estudo.

Participação e apropriação

A proposição dos programas não é exclusiva da equipe: pesquisadores e intelectuais indígenas propõem temas, colaboram na construção dos programas e participam de sua divulgação. A etapa de validação é o ponto em que essa participação vira decisão — o participante revisa o conteúdo antes da publicação. A Rádio Letras propõe no âmbito dos colegiados de professores a possibilidade de pautarem conteúdo para os podcasts. Da mesma forma, atua no meio cultural literário para fomentar o interesse pela participação em podcasts. Além disso, incentiva alunos de Letras e Comunicação a participarem como bolsistas e estagiários.

No trabalho com participantes indígenas e quilombolas, Os convidados indígenas são informados da importância da radiofonia no formato podcast para a circulação e em alguns casos para a preservação de seus saberes tradicionais.

Quanto a operar a tecnologia sem a equipe, a exigência técnica é baixa: gravação, edição de áudio e publicação em plataformas gratuitas estão ao alcance de quem tiver equipamento simples e o protocolo de produção. A prova dessa apropriação está sendo construída na Rádio Guarani, que jovens pesquisadores indígenas operarão nas aldeias Guarani e Kaiowá — o momento em que a metodologia sai das mãos de quem a criou.

Resultados e transformações

Como produtos, desde 2025 foram produzidos e disponibilizados 16 programas em áudio e podcast sobre literatura, linguagem, cosmologias indígenas, cultura e temas contemporâneos, com outros 4 em finalização. Todos ficam disponíveis gratuitamente no site da Rádio Letras (https://lis.uff.br/radioletras/) e em canais próprios nas plataformas de streaming YouTube, Apple Music e Spotify.

Como resultado, 35 pesquisadores, lideranças e intelectuais indígenas, escritores, artistas e convidados participaram das ações de divulgação científica, o que ampliou as redes de colaboração entre a pesquisa acadêmica, os artistas e as comunidades tradicionais. Estudantes e pesquisadores envolvidos na produção formaram-se na prática em comunicação, produção de conteúdo digital e trabalho colaborativo.

A transformação está no tipo de circulação que se abriu: conhecimento produzido na universidade e saberes de comunidades tradicionais passaram a circular no mesmo meio, em acesso aberto e em linguagem acessível, com destaque para os saberes ligados à sustentabilidade e ao enfrentamento da crise climática. Em termos de audiência, As plataformas de streaming como Spotify e Youtube, nas quais a Rádio Letras tem os seus canais para divulgação de podcasts, fornecem automaticamente métricas de audiência.

O alcance efetivo desses conteúdos ainda não está medido: acesso aberto significa alcance possível, não audiência verificada, e é a etapa de avaliação prevista no modelo que converterá uma coisa na outra.

Sustentabilidade e reaplicação

A infraestrutura já existe e é institucional: o estúdio e os equipamentos do LIS/UFF estão instalados desde 2010, e a publicação usa plataformas gratuitas. O custo de operação é de tempo e de pessoas, não de equipamento. A Rádio Letras depende em primeiro lugar da sala cedida já em 2010 pelo Instituto de Letras, na qual foi montado um estúdio com verba da FAPERJ. A mesma FAPERJ tem apoiado a Rádio Letras com Bolsas de Iniciação científicas vinculada ao projeto Cientista do Nosso Estado do coordenador, que prevê também o uso de verbas de custeio e capital para financiar a Rádio Letras. Também mantemos a cada semestre um ou dois estagiários graduandos em Letras e Comunicação, que recebem formação em radiofonia, e atuam na Rádio Letras.

Os desafios são o financiamento, a continuidade e a formação da equipe, o alcance de públicos com baixa conectividade e a preservação digital do acervo, que sem política própria se perde.

Reaplicar não exige reproduzir o estúdio. Bastam equipamentos de baixo custo, plataformas gratuitas, equipe mínima e o protocolo de produção, o que coloca a metodologia ao alcance de escolas, bibliotecas, museus e coletivos culturais. A transferência já tem um caso encaminhado: pelo projeto REDE)Y(Pensar com as Águas, apresentado ao CNPq em 2026 e reunindo quatro universidades latino-americanas, está prevista a criação da Rádio Guarani, por convênio com a UFGD, para duplicar o modelo nas aldeias Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul, com programas realizados por jovens pesquisadores indígenas.

Completed projects

Experiência de Tecnologia Social da UFF, importada do Portal TS. Situação: Em andamento. Período no catálogo: 2026. Local: campus Niterói, RJ. Edital de origem: Edital de Chamamento 2026. ODS: 4 – Educação de qualidade; 13 – Ação contra a mudança global do clima; 19 – Arte, Cultura e Comunicação; 20 – Direitos dos Povos Originários e Comunidades Tradicionais.

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