Histórico
O Ginga-UFF é uma iniciativa de pesquisa, extensão e inovação social da Universidade Federal Fluminense dedicada à criação colaborativa de tecnologias sociais para administrar conflitos e compartilhar conhecimento. Institucionalizado em 2021 no Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGA-UFF) e no Departamento de Antropologia (GAP-UFF), o grupo consolidou uma trajetória de pesquisas iniciada em 2008 pela professora Ana Paula Mendes de Miranda.
As pesquisas do Ginga-UFF analisam a mobilização dos povos de terreiro pelo reconhecimento e pela garantia de seus direitos como povos e comunidades tradicionais, conforme o Decreto nº 6.040/2007. Esse percurso ampliou os estudos sobre conflitos étnico-raciais e religiosos e gerou conhecimento para combater o racismo religioso, integrando pesquisa antropológica, formação, divulgação científica e atuação em políticas públicas.
Desde sua criação, o Ginga-UFF organiza suas atividades em cinco eixos complementares: formação continuada de pesquisadores; estudos sobre conflitos étnico-raciais e religiosos; criação de tecnologias sociais para administrar esses conflitos; apoio às mobilizações pela garantia de direitos e pelo enfrentamento do racismo religioso; e valorização e divulgação dos saberes tradicionais e dos resultados das pesquisas.
Ao longo de sua trajetória, o grupo formou uma ampla rede de cooperação com universidades, povos de terreiro, escolas públicas, órgãos de justiça e segurança, gestores públicos, parlamentares e organizações da sociedade civil. Essa articulação permitiu transformar os resultados das pesquisas em ações de formação, materiais educativos, assessorias institucionais, processos de divulgação científica e espaços permanentes de diálogo entre universidade e comunidades tradicionais. Essas iniciativas vêm contribuindo para qualificar o atendimento às vítimas de racismo religioso nos sistemas de segurança e justiça, fortalecer a formação de profissionais da educação para a implementação da Lei nº 10.639/2003 e ampliar a visibilidade pública das demandas e dos direitos dos povos de terreiro.
A continuidade da experiência ampliou a agenda do Ginga-UFF. Além do enfrentamento do racismo religioso e da defesa de direitos, o grupo passou a abordar justiça climática, transição energética e sustentabilidade em territórios tradicionais. Essa expansão demonstra a capacidade da tecnologia social de responder a novos desafios identificados no trabalho de campo e nas demandas das comunidades parceiras. Essa trajetória demonstra que a produção compartilhada de conhecimento antropológico pode gerar tecnologias sociais capazes de qualificar práticas institucionais, fortalecer processos de mobilização social e ampliar o reconhecimento dos direitos dos povos de terreiro, mantendo permanente diálogo entre universidade, comunidades tradicionais e poder público.
Metodologia
A metodologia do Ginga-UFF fundamenta-se na antropologia enredada, abordagem desenvolvida por sua coordenadora para produzir conhecimento a partir de relações contínuas de confiança, interlocução e corresponsabilidade entre pesquisadores, povos de terreiro, instituições públicas e organizações da sociedade civil. O termo “enredada” destaca que a pesquisa se constrói em redes de relações, nas quais os participantes não são apenas fontes de informação, mas interlocutores que contribuem para formular problemas, interpretar experiências e definir caminhos de atuação. Em vez de intervenções pontuais, a abordagem valoriza vínculos duradouros construídos no trabalho de campo e integra pesquisa, formação, extensão e atuação pública.
A continuidade dessas relações permite acompanhar mudanças sociais, compreender conflitos em seus contextos e formular respostas com os atores envolvidos. Essa perspectiva orienta uma metodologia colaborativa baseada em observação participante, entrevistas, análise documental, organização de bases de dados e acompanhamento das mobilizações dos povos de terreiro. Os resultados são discutidos com lideranças religiosas, pesquisadores, estudantes, educadores, gestores públicos e demais parceiros, favorecendo a validação das análises, a definição de prioridades e o ajuste das ações.
Nesse processo, a tecnologia social não corresponde a um produto isolado, mas a uma metodologia que transforma o conhecimento antropológico em instrumentos de gestão de conflitos, formação, divulgação científica e apoio a políticas públicas. A pesquisa gera materiais didáticos e audiovisuais, bases de dados, eventos, assessorias técnicas e ações formativas e institucionais. Esses resultados ampliam o reconhecimento dos direitos dos povos de terreiro e qualificam a atuação de profissionais da educação, segurança pública, justiça e patrimônio.
A metodologia é cumulativa, reflexiva e adaptável: cada ação produz aprendizados que retornam à pesquisa e orientam novos ciclos de intervenção. A avaliação contínua com as comunidades parceiras permite incorporar demandas emergentes sem abandonar os princípios de produção compartilhada do conhecimento e valorização dos saberes tradicionais. Assim, o Ginga-UFF ampliou sua atuação para temas como justiça climática, transição energética e sustentabilidade em territórios tradicionais, preservando a articulação entre universidade, comunidades e poder público.
A metodologia também reconhece seus limites. Embora contribua para qualificar práticas institucionais, formar profissionais, fortalecer mobilizações e ampliar o reconhecimento de direitos, não mede diretamente a redução das desigualdades, que depende de políticas públicas amplas e contínuas. A iniciativa permanece vinculada à universidade e obtém recursos por meio de editais e parcerias institucionais; por isso, a autonomia financeira não é considerada requisito para sua continuidade.
Resultados e impactos
Desde 2008 e sua institucionalização, em 2022, o Ginga-UFF consolidou uma tecnologia social que converte pesquisa antropológica em formação, mobilização, divulgação científica e apoio a políticas públicas para os povos de terreiro. Seus resultados incluem produção de conhecimento, redes de cooperação e articulação entre universidade, comunidades e instituições públicas.
Na pesquisa, desenvolveu métodos de documentação e análise de conflitos étnico-raciais e religiosos e reuniu 1.828 publicações jornalísticas, 2.173 eventos e 698 conflitos em banco de dados próprio. O acervo apoia pesquisa, ensino, extensão, materiais educativos e divulgação científica, dá visibilidade às mobilizações e oferece informações a pesquisadores, gestores e organizações sociais.
Na formação, promoveu cursos, oficinas, assessorias, seminários e capacitações para pesquisadores, estudantes, professores, profissionais da segurança e da justiça e gestores. As ações qualificam o atendimento às vítimas de racismo religioso, apoiam a Lei nº 10.639/2003 e ampliam o reconhecimento dos direitos dos povos tradicionais.
A antropologia enredada, baseada em confiança e produção compartilhada do conhecimento, sustentou uma rede com universidades, povos de terreiro, escolas, órgãos de justiça e segurança, gestores, parlamentares e organizações sociais. Essa articulação converteu pesquisas em materiais didáticos e audiovisuais, assessorias, eventos, divulgação e espaços permanentes de diálogo.
A escuta das demandas surgidas no trabalho de campo e nas mobilizações também ampliou a agenda para justiça climática, transição energética e sustentabilidade em territórios tradicionais, evidenciando a capacidade de adaptação da tecnologia social.
A iniciativa foi incluída no Catálogo de Tecnologias Sociais da AGIR/UFF (2023) e recebeu, em 2024, o II Prêmio de Divulgação Científica da 34ª Reunião Brasileira de Antropologia, o Prêmio ANPOCS de Divulgação Científica — Jornalismo e o Troféu Iyá Nitinha D'Osun. Em 2026, na 35ª Reunião Brasileira de Antropologia, obteve menções honrosas pelo “Portal Ginga-UFF”, na categoria Blogs e Sites, e pelo “Encontro Ginga”, na categoria Ações Presenciais, Intervenções Públicas e Dispositivos Curatoriais. Os reconhecimentos destacam a transformação da produção científica em tecnologia social e diálogo além da academia.
Resultados, materiais e formações circulam no Instagram, @gingauff, e no YouTube, ampliando o acesso público e o diálogo entre universidade e sociedade.
Embora não seja possível medir diretamente sua contribuição para a redução das desigualdades, o Ginga-UFF qualifica práticas institucionais, fortalece mobilizações, amplia o reconhecimento de direitos e subsidia políticas públicas. A iniciativa possui continuidade organizacional por estar vinculada à universidade e apoiada por sua rede de parceiros, mas não dispõe de autonomia financeira: a execução das atividades depende da obtenção de recursos por meio de editais e parcerias institucionais.
Desafios e perspectivas
Os principais desafios decorrem da dinâmica de sua tecnologia social. A antropologia enredada, baseada em relações de confiança e na produção colaborativa do conhecimento, permite que novas agendas de pesquisa e intervenção surjam do trabalho de campo e das mobilizações dos povos de terreiro. Assim, os desafios aprofundam seus princípios, métodos e compromissos.
Em 2026, essa perspectiva levou à criação do projeto “Política de Terreiros: Transição Energética, Justiça Climática e Sustentabilidade para os Povos Tradicionais”, que amplia as pesquisas sobre justiça climática, justiça racial, sustentabilidade e garantia de direitos. A proposta reconhece que as vulnerabilidades de povos de terreiro envolvem desigualdades no acesso à infraestrutura, às políticas públicas e aos recursos naturais necessários à manutenção de seus modos de vida.
Essa etapa deriva das fases anteriores do projeto “Política de Terreiros”, cujo foco recaía sobre conflitos étnico-raciais e religiosos, mas que o trabalho de campo revelou violações de direitos também na dimensão ambiental. Práticas religiosas são, por vezes, tratadas indevidamente como ameaças ao meio ambiente, restringindo o acesso a florestas, cachoeiras, rios e outros espaços naturais indispensáveis às tradições. Em contraponto, os terreiros adotam práticas sustentáveis, como manejo responsável de recursos naturais e energia solar, reduzindo custos, preservando o ambiente e fortalecendo a autonomia dos territórios.
Esses resultados reforçam o lugar dos povos tradicionais como produtores de conhecimento, sujeitos políticos e protagonistas de soluções sustentáveis e includentes. O Ginga-UFF pretende estruturar um programa permanente de formação, pesquisa e articulação institucional para elaborar diretrizes de políticas públicas, fortalecer práticas sustentáveis nos territórios e desenvolver tecnologias sociais que integrem gestão de conflitos, inovação social e saberes locais.
Outra perspectiva é ampliar a abrangência territorial. Já foram pesquisadas 22 capitais e regiões metropolitanas, formando uma base nacional sobre conflitos, mobilizações e políticas públicas relacionadas aos povos de terreiro. Nos próximos anos, o projeto pretende concluir o mapeamento das áreas ainda não pesquisadas, aprofundar comparações regionais e consolidar ações iniciadas em Sergipe, acompanhando a implementação da Lei do Abril Verde, e em Alagoas. A expansão fortalecerá parcerias institucionais e ampliará a incidência das tecnologias sociais do grupo.
A perspectiva do Ginga-UFF é consolidar uma agenda nacional de pesquisa, formação e inovação social capaz de responder aos novos desafios dos povos de terreiro. O eixo permanente será transformar a pesquisa antropológica em tecnologias sociais voltadas à garantia de direitos, à gestão de conflitos, à sustentabilidade dos territórios tradicionais e ao aperfeiçoamento das políticas públicas, preservando o diálogo entre universidade, comunidades e instituições.