Ações do NEPA: Roda de Conversa Escuta TEA
Tecnologia Social: Ciclo de escuta, sistematização e devolução de conhecimento sobre o TEA
Descrição
A Tecnologia Social desenvolvida consiste em uma metodologia participativa de escuta, sistematização e disseminação de conhecimentos sobre o Transtorno do Espectro do Autismo, que articula encontros remotos gratuitos, participação da comunidade, mediação de pesquisadores e estudantes, organização temática das demandas e produção colaborativa de materiais digitais de acesso livre.
A roda de conversa é a estratégia metodológica e o e-book é o produto. A tecnologia é o ciclo que liga os dois: escutar, organizar, construir, devolver, disseminar e reescutar.
O ciclo se organiza em nove etapas:
1. Identificação das demandas que chegam da comunidade.
2. Organização dos encontros do semestre.
3. Escuta das perguntas e das experiências trazidas pelos participantes.
4. Mediação interdisciplinar, em que pesquisadores de áreas diferentes respondem à mesma pergunta.
5. Registro e categorização por temáticas — médica, terapêutica, pedagógica, social e de organização de informações —, abrangendo tanto o conhecimento especializado quanto o experiencial compartilhado pelos participantes.
6. Edição do livro digital ao fim do semestre.
7. Devolução à comunidade do conhecimento que ela ajudou a produzir.
8. Disponibilização gratuita para download nas redes sociais do grupo.
9. Identificação das novas demandas surgidas, que orientam os encontros do semestre seguinte.
O formato operacional é enxuto: quinze encontros remotos síncronos por semestre, semanais, de uma hora, sem custo para quem participa e sem exigência técnica além de conexão à internet. O que define a tecnologia não é o tema tratado, mas o movimento de transformar dúvida dispersa em conhecimento sistematizado e devolvido em acesso livre.
O problema
Quem convive com o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) — a própria pessoa autista, a família, o professor, o terapeuta, o profissional de serviço público — enfrenta uma dificuldade cotidiana de acesso a informação qualificada, integrada e socialmente contextualizada. A informação disponível costuma estar repartida por especialidade: o dado clínico não conversa com a orientação pedagógica, que por sua vez não alcança a dimensão social nem os direitos a acionar.
O efeito é prático. Diante de uma situação concreta — a matrícula na escola, uma crise, a transição para a vida adulta, a busca por um serviço —, a pessoa precisa reunir sozinha respostas que vêm de campos diferentes, e muitas vezes não sabe a quem perguntar. O conhecimento de quem já passou pela mesma situação circula por redes informais e não fica registrado em lugar algum.
Com o crescimento do número de pessoas identificadas com TEA, essa dificuldade alcança um público cada vez maior, em todas as fases da vida. É a esse problema de acesso ao conhecimento — e não ao diagnóstico em si — que a tecnologia responde.
Construção da solução
A solução partiu de uma premissa do próprio grupo de pesquisa NEPA: o TEA é uma condição complexa, e seu desenvolvimento clínico, social e acadêmico precisa ser abordado de forma interdisciplinar. Uma dúvida sobre o comportamento de uma criança na sala de aula é ao mesmo tempo clínica, pedagógica e social, e a resposta útil só se forma quando esses olhares se encontram na mesma conversa.
Daí a escolha do formato. Em vez de palestra ou material informativo produzido a portas fechadas, optou-se pelo encontro remoto e síncrono, em que a pessoa faz a pergunta e ouve a resposta na hora, e em que outras pessoas com a mesma dúvida escutam junto. O caráter remoto e gratuito foi decisivo: sem deslocamento e sem custo, participam famílias e profissionais de localidades distantes entre si, que não se reuniriam presencialmente.
A composição da equipe é parte da construção. A mediação é feita por pesquisadores de áreas distintas e por bolsistas e alunos de extensão, o que permite que uma mesma pergunta seja respondida pelos ângulos médico, terapêutico, pedagógico e social sem que a pessoa precise procurar quatro interlocutores diferentes.
O segundo passo foi impedir que o conhecimento produzido se perdesse ao fim de cada sessão. Os encontros passaram a ser transcritos, organizados por temática e editados, ao fim de cada semestre, em livro digital gratuito. Foi essa decisão que fechou o ciclo: o que a comunidade trouxe volta para ela em forma consultável, e não se dissolve na conversa.
Participação e apropriação
O que se discute em cada encontro é definido por quem participa: a pauta é a pergunta trazida, e a organização temática do e-book segue o que foi efetivamente perguntado, não um índice fixado de antemão. A comunidade decide o conteúdo; a condução e a edição permanecem com a equipe do grupo de pesquisa. Pessoas autista participam de forma livre e voluntária, fazendo perguntas, compartilhando experiências e algumas pessoas revisam o material produzido. Os participantes contribuem para a definição dos temas prioritários, a avaliação dos materiais produzidos e a identificação das demandas que orientam os encontros subsequentes
A apropriação tem dois níveis distintos. O material é apropriável sem intermediação: os e-books são gratuitos, ficam disponíveis para download e circulam por iniciativa dos próprios participantes, que passam a repassar a outras pessoas as informações construídas nos encontros. Já o encontro em si ainda depende da equipe — mediar ao vivo perguntas clínicas, terapêuticas, pedagógicas e sociais exige a composição transdisciplinar do grupo de pesquisa, e essa é hoje a parte da tecnologia que a comunidade não opera sozinha.
Resultados e transformações
Os resultados se leem em três níveis distintos: alcance, disseminação e impacto.
Em alcance, a experiência reúne 726 cadastros ativos, com participantes de diferentes localidades do Brasil que acompanham os encontros ao vivo ou pelas gravações. A manutenção de quinze encontros por semestre, sem interrupção, é em si evidência de adesão. Cada encontro reúne, em média, 20 participantes ao vivo, as gravações somam cerca de 300 visualizações, os posts da nossa rede social têm 500-1000 visualizações e temos em média 30 dowloads do e-book/mês
Em disseminação, os e-books produzidos a cada semestre somam mais de 200 downloads. São produtos de sistematização: preservam a memória do que foi discutido, tornam consultável um conhecimento que antes existia apenas na conversa e o levam a quem não participou dos encontros, inclusive em territórios sem serviço especializado próximo.
Em impacto, o que a experiência registra hoje são relatos espontâneos: participantes mencionam maior segurança para lidar com situações do cotidiano relacionadas ao TEA depois dos encontros e passam a repassar a outras pessoas as informações construídas coletivamente. Esse repasse é a transformação mais visível — a informação deixa de ficar retida em quem a recebeu.
A distinção entre os três níveis é deliberada: cadastro e download medem alcance e circulação, não mudança de vida. A avaliação estruturada do efeito na rotina das famílias e na prática dos profissionais ainda está em construção.
Sustentabilidade e reaplicação
O custo de operação é baixo: os encontros são remotos e gratuitos, não exigem espaço físico nem equipamento além de conexão à internet, e o e-book é distribuído em formato digital. A fragilidade está na equipe: é o engajamento continuado de pesquisadores e estudantes que sustenta o ciclo, e a escassez de bolsas e de financiamento para divulgação, edição de vídeos e manutenção das redes sociais limita a ampliação. Quanto à sustentabilidade, por ser um dos projetos propostos em uma disciplina obrigatória do curso de Medicina (Iniciação à extensão), forma semestralmente novos mediadores. Atualmente conta com 1 bolsa de extensão.
Reaplicar a logística é simples: quinze encontros por semestre, transcrição, categorização e edição. Reproduzir a condução, não. Mediar temas sensíveis exige qualificação profissional, e responder à mesma pergunta pelos ângulos clínico, terapêutico, pedagógico e social exige equipe transdisciplinar, que nem toda instituição reúne. Essa é a condição real de reaplicação: não o formato, mas a composição de quem media.
A perspectiva é fortalecer a participação da comunidade na definição dos temas e na avaliação dos materiais.
Completed projects
Experiência de Tecnologia Social da UFF, importada do Portal TS. Situação: Em andamento. Período no catálogo: 2026. Local: campus Niterói, RJ. Edital de origem: Edital de Chamamento 2026. ODS: 3 – Saúde e bem-estar; 4 – Educação de qualidade; 8 – Trabalho decente e crescimento econômico; 10 – Redução das desigualdades.
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