(RE)PENSANDO AS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS NO COLUNI-UFF: TECENDO LAÇOS ENTRE ESCOLA E UNIVERSIDADE NA FORMAÇÃO INICIAL DOCENTE
Tecnologia Social: Metodologia participativa de produção e ressignificação de materiais didáticos acessíveis
Descrição
A Tecnologia Social desenvolvida consiste em uma metodologia participativa para produção, adaptação, utilização e avaliação de materiais didáticos acessíveis para o ensino de Ciências, construída colaborativamente por estudantes com deficiência, bolsistas da Educação Básica, graduandos e professora, articulando pesquisa-ação, formação docente e avaliação contínua das práticas pedagógicas.
A distinção importa: o projeto é o espaço em que a metodologia opera, o material acessível é o produto de cada ciclo e o acervo é o resultado acumulado. A tecnologia é o percurso que leva de uma barreira identificada a um recurso ajustado ao estudante que o usa.
O ciclo tem oito etapas:
1. Identificação da necessidade — reconhecimento da barreira que o estudante enfrenta diante de um conteúdo.
2. Discussão coletiva — reuniões entre professores, graduandos e bolsistas da Educação Básica, com pauta de definição dos materiais e leitura de artigos norteadores.
3. Planejamento — definição do conteúdo e das estratégias de acessibilidade, em consonância com o PEI e com as habilidades do estudante.
4. Desenvolvimento — confecção do material didático acessível.
5. Aplicação — uso nas aulas de apoio, protagonizadas pelos alunos-bolsistas da Educação Básica.
6. Avaliação — observação das dificuldades e possibilidades surgidas no uso.
7. Readequação — modificação do material conforme o que a aplicação revelou.
8. Sistematização — incorporação ao acervo, com registro do que foi ajustado.
O que faz do conjunto uma tecnologia, e não uma soma de produções isoladas, é a adequação sociotécnica: o recurso é ajustado ao sujeito e ao contexto escolar, e não o contrário. A base é a pesquisa-ação, que mantém teoria e cotidiano escolar em revisão mútua.
O problema
Estudantes com deficiência matriculados nos Anos Finais do Ensino Fundamental enfrentam barreiras concretas de acesso aos conteúdos curriculares de Ciências. Boa parte desses conteúdos baseiam-se em representações visuais e em abstrações que o livro didático apresenta, engessando o modo de aprender.
No COLUNI-UFF, o problema se adensou com o aumento do número de matrículas de estudantes com deficiência nos últimos anos. Faltavam materiais didáticos acessíveis para os conteúdos de Ciências previstos em cada ano escolar e que levassem em consideração as habilidades e limitações de cada estudante.
De igual modo, o projeto visa a formação inicial docente, que costuma terminar sem que o futuro professor tenha produzido, aplicado e avaliado um material didático acessível junto a um estudante com deficiência. A prática pedagógica inclusiva permanece no plano do discurso e a escola recebe docentes despreparados para a sala que vão encontrar.
Construção da solução
A resposta foi construída dentro da escola, e não trazida para ela. O COLUNI-UFF é o colégio da Universidade Federal Fluminense, que busca garantir a aprendizagem dos estudantes com deficiência e, de igual modo, vem possibilitando aos licenciandos em Ciências Biológicas vivenciar a educação inclusiva durante a sua formação.
Desse modo, o projeto passou a produzir, sob a orientação da professora de Ciências da escola, materiais didáticos acessíveis.
Junto aos licenciandos foram incluídos à equipe estudantes da própria Educação Básica, como bolsistas do Programa de Pré-Iniciação Científica Júnior (PIBIQUINHO/CNPq) e do Programa Monitoria Júnior. São eles que protagonizam as aulas de apoio de Ciências em que os materiais são usados, com o auxílio dos demais integrantes do grupo.
É importante ressaltar que, nenhum material é dado como pronto. Ele é aplicado, observado em uso, avaliado a partir das dificuldades e possibilidades que aparecem e então repensados. Foi a repetição desse ciclo, ao longo de cinco anos, que separou o que é próprio de cada material do que se repete em todos — e o que se repete é a metodologia.
O acervo didático veio depois, por consequência: cada material acessível reavaliado e incorporado foi acumulando os conhecimentos construídos no cotidiano escolar.
Participação e apropriação
A comunidade escolar, aqui, são os estudantes público-alvo da Educação Especial do COLUNI-UFF, os mediadores, os professores e os demais estudantes da Educação Básica e da graduação. A elaboração das aulas e o desenvolvimento dos materiais didáticos acessíveis são realizados de forma coletiva e colaborativa por graduandos do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas (bolsistas PROLICEN), bolsistas de iniciação científica (PIBIQUINHOS) e monitores, que são estudantes da Educação Básica do COLUNI-UFF, sob a orientação e supervisão da professora de Ciências dos Anos Finais do Ensino Fundamental.
Visando a inclusão e o protagonismo discente, alunos com deficiência e transtornos globais do desenvolvimento participam diretamente do processo de confecção de parte dos recursos pedagógicos. A partir da interação dos alunos público-alvo da Educação Especial com o material e de como se apropriam dos conteúdos trabalhados é realizada a avaliação da eficácia do material no processo de aprendizagem dos alunos, que podem ser reformulados com base nas vivências e dinâmicas observadas. Ademais, os mediadores acompanham a execução das atividades e propõem adaptações pedagógicas sempre que necessário.
O momento decisivo é a etapa de avaliação: os materiais são usados pelos estudantes com deficiência e reavaliados a partir das demandas que eles apresentam. É a experiência de uso que determina se um recurso permanece como está, é modificado ou é abandonado — o critério de sucesso vem de quem usa, não de quem produziu.
Resultados e transformações
A transformação acontece em três níveis.
Para os estudantes público-alvo da Educação Especial, a metodologia contribui para o acesso e a aprendizagem dos conteúdos de Ciências previstos para o ano escolar e para a alfabetização científica, respeitando as habilidades e o tempo de aprendizagem de cada um. Alunas que pouco participavam das aulas de Ciências começaram a desenvolver interesse. Tais progressos culminaram na elaboração de materiais didáticos e na apresentação de trabalhos autorais durante a Feira de Ciências.
Os alunos-bolsistas da Educação Básica ganham, ainda, experiência de pesquisa dentro da escola, protagonizando as aulas de apoio.
Para os futuros professores, a mudança é de formação: os graduandos em Ciências Biológicas produzem materiais, observam a própria prática, avaliam suas escolhas pedagógicas, trabalham colaborativamente e revisam o currículo de Ciências pela chave da acessibilidade. Saem da licenciatura tendo feito educação inclusiva, e não apenas estudado sobre ela.
Para a escola, a transformação está no acervo e na cultura que ele carrega. Cinco anos de produção, uso e readequação constituíram um acervo de recursos acessíveis disponíveis aos professores de Ciências Biológicas.
Os efeitos não se manifestam plenamente porque os materiais são difíceis de multiplicar e porque a inclusão depende também de questões estruturais, de mais mediadores e de investimento na formação docente. A experiência vem sendo sistematizada em trabalhos apresentados em eventos acadêmicos de educação e de ensino de Ciências.
Sustentabilidade e reaplicação
Uma das dificuldades encontradas foi o pequeno quantitativo de bolsas. Além disso, os materiais didáticos confeccionados, não são produzidos em grande quantidade, o que inviabiliza pensar no seu uso em sala de aula com toda a turma.
Ser professora de um colégio federal facilita o desenvolvimento da atividade, uma vez que o tempo de dedicação que se tem é facilitado por se estar em uma única escola. Ter mediadores e bolsistas para atuarem coletivamente no processo de aprendizagem das alunas é um facilitador. Porém, por se tratarem de materiais didáticos confeccionados com materiais de baixo custo, isso torna possível professores de outras redes de ensino desenvolverem os materiais.
Como perspectiva futura, o projeto pretende continuar a produzir materiais didáticos acessíveis para compor o acervo, que contemple outros temas do currículo de Ciências.
Completed projects
Experiência de Tecnologia Social da UFF, importada do Portal TS. Situação: Em andamento. Período no catálogo: 2026. Local: campus Niterói, RJ. Edital de origem: Edital de Chamamento 2026. ODS: 4 – Educação de qualidade; 5 – Igualdade de gênero; 10 – Redução das desigualdades; 16 – Paz, justiça e instituições eficazes.
Portfolio (4 item(s))
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Apresentação dos materiais didáticos na SBPC