Consultório de Enfermagem: serviço de consulta e teleconsulta em uma universidade federal
Tecnologia Social: Modelo de consultório de enfermagem universitário com teleconsulta e protocolos públicos
Descrição
A Tecnologia Social desenvolvida consiste em um modelo de consultório de enfermagem universitário com teleconsulta, que articula consulta presencial e remota, protocolos assistenciais baseados em evidências, prontuário eletrônico, canais digitais de acesso direto da população e campanhas de saúde, sistematizado em documentos normativos de acesso público que permitem sua reprodução em outras universidades.
A tecnologia não é o consultório como espaço nem a teleconsulta isoladamente: é o arranjo entre eles e o conjunto documental que permite replicá-lo em outro lugar.
O modelo opera em seis elementos articulados:
1. Acesso — o próprio usuário agenda e reagenda por aplicativo de mensagens, em demanda espontânea, e preenche o termo de consentimento em formulário on-line antes do atendimento.
2. Consulta — presencial ou remota conforme o caso, conduzida por protocolo assistencial e em conformidade com a legislação da enfermagem e a LGPD.
3. Registro — prontuário eletrônico em ambiente institucional, que preserva a série do acompanhamento e permite retomar o caso na consulta seguinte.
4. Linhas de cuidado — intervenção breve em uso de drogas, saúde sexual e reprodutiva, assistência pré-natal e puerperal, testagem rápida e manejo de infecções sexualmente transmissíveis, HIV e hepatites virais, práticas integrativas e rastreamento de hipertensão e diabetes.
5. Campanhas de saúde — planejadas e executadas anualmente nas salas de atendimento e no hall da universidade.
6. Avaliação e revisão — as avaliações cíclicas de satisfação orientam melhorias, reescritas nos POPs e protocolos.
Os documentos normativos públicos são parte da tecnologia, não subproduto dela: sem eles, o modelo não sai da instituição que o criou.
O problema
O acesso ao cuidado em saúde é o problema que a experiência enfrenta, em dois públicos que se sobrepõem no mesmo território. De um lado, a comunidade da UFF em Rio das Ostras — discentes, docentes, técnico-administrativos e trabalhadores terceirizados —, que passa o dia no campus e, para uma consulta, precisa interromper a aula ou o expediente e procurar a rede de atenção à saúde de fora. De outro, a população dos municípios da baixada litorânea do estado do Rio de Janeiro, que depende da atenção primária à saúde local.
As demandas que chegam ao serviço indicam o que fica descoberto: intervenção breve em uso de drogas, saúde sexual e reprodutiva, acompanhamento pré-natal e puerperal, testagem rápida e manejo de casos suspeitos de infecções sexualmente transmissíveis, HIV e hepatites virais, rastreamento de hipertensão e diabetes. São necessidades de acompanhamento continuado, em que o intervalo entre uma consulta e a seguinte pesa sobre o desfecho.
A pandemia de COVID-19 acrescentou uma restrição a esse quadro: por um período, o atendimento presencial deixou de ser possível, e interromper o vínculo com quem já estava em acompanhamento passou a ser um risco em si.
Construção da solução
O Consultório de Enfermagem Érick Igor dos Santos foi criado em 2017 como serviço de saúde e laboratório de ensino, pesquisa e extensão do Departamento de Enfermagem de Rio das Ostras do Instituto de Humanidades e Saúde da Universidade Federal Fluminense (UFF). O serviço funciona desde 16 de maio de 2017, e este projeto de extensão, que organiza suas ações atuais, foi criado em 2023.
A construção partiu de um recurso já previsto em lei e pouco aproveitado: a consulta de enfermagem, capaz de resolver por si boa parte das demandas e necessidades de saúde que chega a um serviço de atenção primária à saúde. Em torno dela foram organizados protocolos baseados em evidências, diretrizes clínicas do Ministério da Saúde e os preceitos éticos e legais da profissão, com equipe formada por docentes enfermeiras, enfermeiras de responsabilidade técnica e estudantes de graduação.
O ponto de virada foi 2021. Com a pandemia de COVID-19, a alternativa ao fechamento foi levar o cuidado para fora do espaço físico: entraram o prontuário eletrônico, o agendamento por aplicativo de mensagens e a teleconsulta, conduzida em conformidade com a legislação da enfermagem e com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). O que começou como saída de emergência ficou como parte permanente do modelo, porque resolvia um problema anterior à pandemia: a continuidade do cuidado entre uma consulta e outra.
O passo seguinte foi transformar a rotina em documento. Procedimentos Operacionais Padrão (POPs), protocolos de consulta e de teleconsulta, Manual de Normas e Rotinas e Regimento Interno foram escritos e depositados no Repositório Institucional da UFF (RIUFF), de acesso público. Foi essa escrita que separou o modelo da equipe que o opera: o que estava na prática de cada enfermeira passou ao alcance de quem queira reproduzi-la.
Participação e apropriação
A oferta de testagem rápida para sífilis, HIV, hepatites B e C foi ampliada e o horário das campanhas de saúde foi ajustado após demanda registrada nos atendimentos. A atualização dos protocolos de (Tele)consultas de enfermagem ocorreu a partir das avaliações de satisfação dos usuários.
As avaliações cíclicas de satisfação são o canal formal por onde o retorno de quem é atendido entra na condução do serviço: seus resultados orientam as melhorias na qualidade das ações e a revisão dos procedimentos.
A apropriação está no que o usuário faz sem a equipe. O agendamento e o reagendamento partem dele, por demanda espontânea, no aplicativo de mensagens que já utiliza no cotidiano; o termo de consentimento é preenchido por ele, on-line, antes do atendimento; as dúvidas seguem pelo mesmo canal, fora do horário da consulta. Nenhuma dessas etapas exige equipamento adicional nem aprendizado novo de quem procura o serviço.
Um segundo nível de apropriação ocorre entre os estudantes de graduação, da monitoria, da iniciação científica e do Programa de Educação Tutorial (PET), que incorporam os protocolos e os procedimentos à própria prática assistencial e os levam para os estágios e serviços por onde passam — o modelo circula, assim, para além da equipe que o criou.
Resultados e transformações
Até junho de 2026, o serviço contabilizou 1507 prontuários. Nos últimos três anos, o total de consultas de enfermagem cresceu de 196 para 362 — aumento de 85% —, e a consulta em saúde sexual e reprodutiva liderou os atendimentos em todos os anos, entre 42% e 48% do total.
As campanhas de saúde alcançaram público próprio: 210 participantes na campanha de vacinação, 174 nas campanhas de testagem de infecções sexualmente transmissíveis, HIV e hepatites virais e 25 nas campanhas Outubro Rosa e Outubro Verde em 2025.
A transformação mais direta está na continuidade do cuidado. Com o agendamento feito no aplicativo que o usuário já tem no celular e a possibilidade de atendimento remoto, o retorno deixou de depender de deslocamento e de horário compatível com o expediente, e o acompanhamento dos casos que exigem mais de uma consulta passou a se sustentar.
Quanto à avaliação pelos usuários, a avaliação cíclica realizada pelos comentários dos uusários ao final das consultas e das campanhas de saúde proporcionou atualização dos protocolos de (Tele)consultas de enfermagem do serviço.
A experiência vem sendo sistematizada em Procedimentos Operacionais Padrão, protocolos de consulta e teleconsulta, Manual de Normas e Rotinas, Regimento Interno, Programa de Gerenciamento de Resíduos Sólidos de Saúde e POPs de limpeza e higienização, todos depositados no RIUFF, além de monografias e artigos. O reconhecimento externo veio com o Prêmio Laboratório de Inovação em Enfermagem (OPAS/COFEN, 2020), menções honrosas em 2023 e 2026 e o primeiro lugar no Prêmio Rosalda da Cruz Nogueira da 26ª Semana da EEAAC/UFF. Website institucional, canal no YouTube com 14 vídeos e mais de 1,9 mil visualizações e perfis em redes sociais levam os mesmos conteúdos à educação popular em saúde.
Sustentabilidade e reaplicação
O que sustenta o modelo desde 2017 é o encaixe com a estrutura da universidade: espaço, vínculo docente e infraestrutura já existem, e as ferramentas digitais adotadas são gratuitas. A fragilidade está na equipe ampliada, dependente da renovação anual de bolsas de extensão, de iniciação científica e do PET — a autonomia financeira própria não está resolvida.
O desafio de maior alcance é político: a articulação com a gestão municipal, que envolve o reconhecimento da autonomia do enfermeiro na consulta de enfermagem e a integração do consultório à atenção primária local.
A reaplicação já tem material pronto: os documentos no RIUFF reúnem os instrumentos normativos, assistenciais e de biossegurança de que outra universidade precisa para implantar serviço equivalente. O que a instituição acrescenta é sala de atendimento, responsabilidade técnica de enfermagem e um curso de graduação que forneça os estudantes.
As perspectivas incluem a consolidação como campo de prática e de pesquisa e o aprofundamento das linhas de cuidado em saúde planetária.
Projetos executados
Experiência de Tecnologia Social da UFF, importada do Portal TS. Situação: Em andamento. Período no catálogo: 2026. Local: campus Rio das Ostras, RJ. Edital de origem: Edital de Chamamento 2026. ODS: 3 – Saúde e bem-estar; 4 – Educação de qualidade; 5 – Igualdade de gênero; 13 – Ação contra a mudança global do clima; 16 – Paz, justiça e instituições eficazes; 18 – Igualdade Étnico-Racial.
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