Diálogos entre universidade e comunidade através da arte do bordado e da escuta sensível
Tecnologia Social: Metodologia de convivência e produção coletiva baseada no bordado
Descrição
A Tecnologia Social desenvolvida consiste em uma metodologia de convivência, formação e produção coletiva baseada no bordado como prática cultural e artística, que articula saberes tradicionais, diálogo, escuta sensível, participação e produção colaborativa entre universidade e comunidade. A tecnologia não é o bordado: o bordado é a técnica em torno da qual o método se organiza. O que se reaplica é o arranjo entre encontro aberto, aprendizagem horizontal, decisão coletiva do que produzir e devolução pública.
O método se organiza em oito etapas:
1. Acolhimento — encontros semanais de duas horas, abertos, sem matrícula nem vínculo formal; permanecer ou sair é escolha de cada uma.
2. Preparo do ambiente — uma sala da universidade ou outro espaço compatível com a técnica, com uma mesa para o material coletivo e outra para os petiscos levados pelas bordadeiras, que dão leveza ao encontro.
3. Aprendizagem da técnica — pontos, materiais e procedimentos, partindo do reconhecimento de que as participantes já são portadoras de conhecimentos; quem domina um ponto ensina as demais.
4. Produção individual — experimentação livre, enquanto o domínio da técnica se firma.
5. Definição coletiva — o grupo decide tema, finalidade e destino da produção: uma demanda de alguém do grupo, como a campanha de fraternidade, ou uma exposição temática, como a da Ilha Grande, prevista para 2026.
6. Produção colaborativa — as participantes partilham descobertas e estratégias e executam conjuntamente as peças.
7. Formação e diálogo — músicas para trabalhar memória e história, vídeos sobre práticas comunitárias e leituras de contos sobre experiências femininas; noutros encontros, a conversa é livre.
8. Socialização — exposições e circulação pública das produções e possibilidade de geração de renda como artesã, com certificação pela Prefeitura Municipal de Angra dos Reis.
O problema
Entre a universidade e as mulheres que vivem no seu entorno, em Angra dos Reis, há uma distância que não é geográfica. Muitas nunca entraram em um campus, não se reconhecem como portadoras de direitos sobre aquele espaço e tampouco veem seus saberes — de agulha, de criação, de vida — como conhecimento que a universidade tenha motivos para acolher. Do outro lado, a instituição costuma chegar à comunidade oferecendo algo pronto, o que reproduz a mesma hierarquia e autoritarismo estruturante da sociedade capitalista, em vez de desfazê-la, criando espaços de horizontalidade.
A esse afastamento somam-se dois problemas que atingem diretamente essas mulheres. O primeiro é o isolamento doméstico: a rotina em casa estreita as redes de convivência e reduz as ocasiões de sair, encontrar outras pessoas e falar de si em um ambiente de escuta. O segundo é o desaparecimento progressivo do bordado como prática cultural transmitida entre gerações — um saber que ainda existe, mas sobrevive disperso, sem espaço coletivo de circulação e sem reconhecimento como conhecimento legítimo.
É a esse conjunto — distância entre saber acadêmico e saber comunitário, isolamento e perda de uma tradição — que a tecnologia responde.
Construção da solução
A iniciativa não nasceu de demanda formalmente apresentada pela comunidade. Partiu de uma proposta da equipe universitária: usar o bordado, prática que reúne pessoas em torno de uma mesa e de um tempo longo de conversa, para aproximar da universidade, as mulheres do seu entorno. A pandemia adiou a implementação do projeto, que só foi iniciado em 2024. Portanto, ação chega, em 2026, à sua terceira edição, como projeto de extensão.
O que fez a proposta deixar de ser uma oficina oferecida pela universidade foi o modo como a prática foi sendo ajustada. Nos primeiros encontros o bordado era livre: cada participante experimentava a técnica, segundo o próprio interesse À medida que o domínio dos pontos se firmava, as decisões passaram para o grupo — o que bordar, com que finalidade, para quem. A equipe deixou de propor os temas e passou a organizar as condições para que o grupo os escolhesse.
Duas constatações moldaram o método. A primeira: as participantes já chegavam sabendo usar a agulha e trazendo repertórios próprios, aprendidos em casa ou pesquisados por conta própria; a universidade não tinha uma técnica a transmitir, tinha um espaço de encontro e de sistematização a oferecer. A segunda: o tempo de conversa não era intervalo entre uma tarefa e outra, era parte do trabalho — foi ele que transformou um conjunto de aprendizes em um coletivo.
Materiais de baixo custo, boa parte trazida pelas próprias bordadeiras, e uma sala emprestada bastaram para sustentar o formato: encontros semanais, abertos, sem matrícula nem vínculo formal.
Participação e apropriação
A condução dos encontros é da equipe universitária, mas as decisões que definem a produção são do grupo. Dominada a técnica, são as participantes que escolhem tema, finalidade e destino de cada bordado, em deliberação coletiva — foi assim com a campanha de fraternidade, atendida a pedido de uma integrante, e com a exposição sobre a Ilha Grande. Em 2025, parte das bordadeiras decidiu participar de uma ação nacional ligada à COP30, bordando a Amazônia Azul como denúncia da agressão ao meio ambiente, com exposição durante o evento. Ou seja, o grupo de bordadeiras da UFF participou da campanha nacional de bordados sobre preservação do planeta, com foco na Amazônia Azul, que resultou numa exposição de mais de 100 bordados, durante a COP30 Realizada em 2025 na Cidade de Belém do Pará.
A apropriação é o ponto mais forte da experiência. O conhecimento técnico circula horizontalmente: as participantes partilham entre si as descobertas, muitas pesquisadas por elas na internet e a equipe só apoia no desenho a ser bordado. Elas bordam fora dos encontros, algumas vendem peças em feiras e são elas que apresentam o trabalho quando o grupo sai da universidade. A apropriação do espaço universitário aparece na música que compuseram, 'As Bordadeiras da UFF' — nome com qual se reivindicam, indicando que se sentem parte da instituição.
Resultados e transformações
Os encontros semanais reúnem, atualmente entre 10 e 15 mulheres. A entrada de novas participantes é contínua e, quase sempre, por indicação de quem já frequenta, sinal de que o grupo circula e é reconhecido no entorno. A permanência ao longo dos ciclos e a disposição de atuar fora dos encontros completam o quadro: no encerramento do semestre, o grupo levou um momento de bordado expositivo a um congresso realizado no IEAR. Ao longo do desenvolvimento do projeto, o grupo produziu dezenas de peças acabadas, tendo sido parte desta produção, através da técnica de bordado em fotografias e já exibiu trabalhos em duas exposições. O grupo também participou de dois congressos no IEAR, inclusive bordando ao vivo para o público presente.
A transformação mais nítida está na relação estabelecida com a universidade. Mulheres que não frequentavam o campus passaram a ocupá-lo semanalmente, a falar do projeto no seu entorno e a se reconhecerem como parte dele — o que se materializou na música que compuseram, 'As Bordadeiras da UFF'. O pertencimento deixou de ser expectativa da equipe e virou enunciado das próprias participantes.
No plano da convivência, os relatos indicam redução do isolamento e ampliação das redes de apoio. As participantes descrevem o estreitamento das relações como ganho de qualidade de vida e, no último encontro do ano de 2025, disseram que o intervalo até o retorno faria sentir falta daqueles momentos, porque ficariam sem o bordado, como pretexto, que as tira de casa. Relatam também ter aprendido a conviver de forma afetuosa com as diferenças e a partilhar experiências — mudança de convivência, e não resultado clínico aferido.
Sustentabilidade e reaplicação
O custo de operação é baixo: o material de bordado é adquirido pelas próprias participantes, o de uso inicial sai de recursos da equipe e o espaço é uma sala da universidade. A fragilidade não está no custo, e sim no vínculo institucional — os encontros dependem da bolsa de extensão e da renovação do projeto a cada ciclo. A busca de apoio junto a lojas de material de bordado ainda não obteve êxito, e a divulgação dependia de canais pouco ativos: o Instagram voltou a ser ativado e tem sido alimentado, mas ainda de forma tímida. Há a intenção de buscar espaço de divulgação na rádio Costa Azul, emissora local que apoia o IEAR.
Para reaplicar, o que se transfere não são as peças, e sim as etapas: encontro aberto e regular, aprendizagem horizontal da técnica, decisão coletiva do tema, produção colaborativa e socialização pública, criação de ambiente e clima de escutas e de apoio mútuo. Bastam uma técnica manual de baixo custo, um espaço cedido e alguém disposto a coordenar sem dirigir. A metodologia, porém, ainda circula pela prática: registrá-la em roteiro escrito é a condição que falta para que outro grupo a reproduza sem acompanhamento. Entretanto, esta experiência foi apresentada na 68ª Reunião Anual da SBPC e resultou num documentário, produzido para um minicurso do evento. Há também um artigo aguardando publicação em revista de circulação internacional.
A geração de renda permanece como possibilidade concreta. Algumas das bordadeiras já obtiveram carteiras de artesãs pela prefeitura — algumas já vendem peças em feiras livres no município— e ganharia escala com equipamento e formação, em arranjos como cooperativas.
Projetos executados
Experiência de Tecnologia Social da UFF, importada do Portal TS. Situação: Em andamento. Período no catálogo: 2026. Local: campus Angra dos Reis, RJ. Edital de origem: Edital de Chamamento 2026. ODS: 3 – Saúde e bem-estar; 8 – Trabalho decente e crescimento econômico; 10 – Redução das desigualdades; 11 – Cidades e comunidades sustentáveis; 16 – Paz, justiça e instituições eficazes; 19 – Arte, Cultura e Comunicação.
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