Modelo participativo de educação ambiental e mobilização social para o descarte adequado de medicamentos e para a prevenção da contaminação ambiental
Tecnologia Social: Metodologia de formação de estudantes multiplicadores para o descarte adequado de medicamentos
Descrição
A Tecnologia Social desenvolvida consiste em uma metodologia participativa de educação ambiental e mobilização comunitária que forma estudantes universitários como agentes multiplicadores, para sensibilizar a população sobre os riscos do descarte inadequado de medicamentos, orientar sobre a logística reversa e mobilizar a destinação adequada do que está guardado em casa.
A coleta é resultado da metodologia, não a metodologia. O que se reaplica é o protocolo de sete etapas:
1. Formação — atividades dialogadas sobre contaminantes emergentes, impactos do descarte inadequado, logística reversa e comunicação comunitária, com metodologias ativas, estudos de caso e problematização.
2. Preparação — formação das equipes, definição de estratégias, produção do material de divulgação e orientação sobre como abordar a comunidade.
3. Mobilização — em grupos, os estudantes envolvem familiares, amigos e vizinhos na identificação do que está guardado, explicam os riscos e divulgam os pontos oficiais de coleta.
4. Arrecadação e triagem — recebimento, separação e classificação do que foi entregue.
5. Destinação — o que está impróprio para uso segue para os pontos oficiais de coleta; o que está dentro da validade e com embalagem íntegra é encaminhado à instituição parceira, que avalia por seus próprios critérios técnicos, sanitários e institucionais e decide sobre a dispensação.
6. Avaliação — questionários aplicados aos estudantes sobre arrecadação, participação, aprendizagem e intenção de mudança de comportamento, em pesquisa aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Antônio Pedro da UFF (CAAE nº 91155425.10000.5243).
7. Retroalimentação — discussão dos resultados e incorporação de melhorias na turma seguinte.
O problema
Medicamentos vencidos ou em desuso se acumulam nas casas. Ficam em gavetas e armários por anos, ao alcance de crianças, e quando finalmente saem de lá vão para o lixo comum ou para a pia, os dois caminhos que levam os princípios ativos ao solo e aos recursos hídricos.
Esses compostos integram o grupo dos contaminantes emergentes: chegam à água em concentrações baixas, mas contínuas, e os sistemas convencionais de tratamento não foram desenhados para removê-los. O efeito se acumula sobre os ecossistemas aquáticos e sobre a saúde pública.
Existe solução legal e operante, a logística reversa obriga a cadeia farmacêutica a receber de volta o que a população devolve, e há pontos oficiais de coleta em farmácias e unidades de saúde. O problema não é a ausência do sistema, é o desconhecimento dele: grande parte da população não sabe que esses pontos existem, onde ficam, nem por que o descarte no lixo comum é prejudicial. Sem essa informação circulando, o sistema fica ocioso e o medicamento continua indo para o lugar errado.
Construção da solução
A resposta não foi montada como campanha, e sim dentro da sala de aula. As disciplinas Toxicologia Geral, do curso de Farmácia, e Toxicologia Ambiental, do curso de Engenharia de Recursos Hídricos e do Meio Ambiente da UFF, já tratavam de contaminantes emergentes e de impacto ambiental como conteúdo. A pergunta foi como transformar esse conteúdo em ação de quem o estuda.
Aconteceu no segundo semestre de 2025.
A escolha de fundo foi usar o estudante como ponte. Quem cursa toxicologia tem o conhecimento técnico e tem, ao mesmo tempo, a rede de convivência, família, vizinhos, amigos, em que o medicamento esquecido está guardado. Em vez de a universidade ir até a comunidade, o estudante leva a informação a quem já o escuta.
Duas peças foram acrescentadas ao longo do percurso. A gamificação, com reconhecimento simbólico das equipes que mais arrecadam, feito de coroas de embalagens e faixas de bulas descartadas, o próprio prêmio ensina reutilização. E a parceria de doação, com o destino para os medicamentos ainda válido que chegava junto ao vencido.
A avaliação por questionário, em pesquisa aprovada em Comitê de Ética, fechou o desenho, com geração de dados uma futura repetição da gincana.
Participação e apropriação
A participação da comunidade se concentra nas etapas de mobilização e arrecadação: é o morador que identifica o que tem guardado, decide entregar e conversa com o estudante sobre o que fazer da próxima vez. A concepção da metodologia, contudo, permaneceu com a equipe universitária — ampliá-la ao diagnóstico, ao planejamento e à avaliação é perspectiva declarada, não prática atual.
Quem opera a tecnologia sem a equipe é o próprio estudante formado. Terminada a disciplina, ele carrega o que basta para agir sozinho: sabe reconhecer um medicamento vencido, sabe explicar por que a pia e o lixo comum são o destino errado e sabe indicar o ponto oficial mais próximo. O mesmo vale para quem foi orientado por ele.
Resultados e transformações
No período de agosto a outubro de 2025, mais de 39 mil unidades de medicamentos deixaram os domicílios e receberam destinação ambientalmente adequada — unidades que, sem a mobilização, teriam ido ao lixo comum ou à rede de esgoto. É o efeito ambiental mais direto da metodologia, e também a medida do quanto o sistema de logística reversa estava ocioso.
Há um segundo destino, de efeito social. Na triagem, os medicamentos dentro da validade e com embalagem íntegra foram encaminhados pela coordenadora ao setor de dispensação do projeto Farmácia Popular, do SEFRAS da Paróquia Porciúncula de Sant'Ana, em Niterói (RJ). A instituição avalia por seus critérios técnicos, e os considerados aptos são dispensados gratuitamente, mediante prescrição, a pessoas em situação de vulnerabilidade. O que seria desperdício vira acesso a tratamento.
A mudança educacional sustenta as outras duas. Os estudantes passam a reconhecer o impacto ambiental do descarte inadequado e a atuar como multiplicadores junto a familiares e vizinhos. A atividade mostrou-se eficaz na promoção da aprendizagem, consciência socioambiental e potencial multiplicador.
A experiência foi sistematizada em artigo científico publicado, o que permite que outra instituição conheça o desenho e o reproduza, e a monitora participante recebeu Menção Honrosa na XXVII Semana de Monitoria da UFF.
Sustentabilidade e reaplicação
O custo de implementação é baixo e a metodologia cabe nas atividades regulares de uma disciplina, o que reduz a dependência de recursos financeiros específicos. A fragilidade é outra: enquanto a aplicação depender da iniciativa de uma disciplina e de uma docente, ela acompanha o calendário acadêmico e some se essa pessoa sair. A saída apontada é a incorporação permanente às disciplinas e à extensão.
Os outros desafios têm frente definida: o desconhecimento da população, enfrentado com ampliação das campanhas e material digital; a destinação, com ampliação da rede de pontos oficiais e de parceiros; e a avaliação de impacto, com acompanhamento longitudinal dos participantes.
Reaplicar exige quatro componentes: material didático sobre contaminantes e logística reversa, roteiro de mobilização, articulação com pontos oficiais de coleta e instrumento de avaliação. A parceria para destinação de medicamentos válidos é desejável, mas exige acordo com instituição que tenha critérios técnicos, éticos e legais próprios de avaliação.
Projetos executados
Experiência de Tecnologia Social da UFF, importada do Portal TS. Situação: Em andamento. Período no catálogo: 2026. Local: campus Niterói, RJ. Edital de origem: Edital de Chamamento 2026. ODS: 3 – Saúde e bem-estar; 4 – Educação de qualidade; 6 – Água potável e saneamento; 12 – Consumo e produção responsáveis; 14 – Vida na água; 15 – Vida terrestre.