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Pedro Renan Santos de Oliveira

Departamento de Psicologia de Campos (CPS) · UFF

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Habilidades

Jogo do Privilégio e da Diferença: práticas lúdicas de promoção de direitos humanos

Área principal: Ciências Sociais Aplicadas Área secundária: Ciências Humanas Área secundária: Linguística, Letras e Artes Tecnologias de Processo #Acesso a direitos e cidadania #Comunidades urbanas periféricas #Direitos Humanos e Cidadania #Educação e Formação #Juventude #Mulheres #ODS 10 #ODS 18 #ODS 3 #ODS 4 #ODS 5 #Tecnologia Social

Tecnologia Social: Metodologia formativa de letramento em Direitos Humanos por jogo de tabuleiro e cards

Descrição

A Tecnologia Social desenvolvida consiste em uma metodologia formativa de letramento em Direitos Humanos que usa um jogo de tabuleiro como dispositivo de problematização: os participantes assumem personagens com marcadores sociais distintos, percorrem situações do cotidiano que produzem privilégio ou exclusão e, a partir do que vivem na partida, discutem as próprias práticas profissionais.

A tecnologia não é o jogo. O jogo é o material; a tecnologia é o percurso que vai da vivência lúdica ao debate sobre a rotina do serviço e daí à reaplicação pelo próprio profissional.

Uma aplicação segue oito passos: preparação dos participantes; apresentação das regras; distribuição dos personagens; realização das rodadas; discussão das situações; reflexão coletiva; avaliação; e orientação para reaplicação. Cada aplicação dura 2h, com até 30 participantes e 4 mediadores, em sala com mesas e cadeiras, permitindo arranjo em círculo. A primeira etapa é jogar com as próprias experiências e a segunda a partir dos personagens. A última é a conversa em grupo sobre a aplicação e seus desdobramentos.

O que se adapta e o que não se adapta é explícito. Permanecem fixos os objetivos, os princípios de Direitos Humanos, a estrutura do tabuleiro e as regras fundamentais. Ajustam-se as situações, os personagens, os exemplos, a linguagem e os marcadores que ganham mais tempo de debate, conforme o perfil do grupo e o território.

A transferência é organizada em quatro níveis: aplicação assistida, conduzida pelos extensionistas; formação, em que o profissional parceiro aprende a conduzir; aplicação autônoma, sem a equipe da UFF; e multiplicação, quando esse profissional capacita outros.

O problema

Em Campos dos Goytacazes (RJ), o histórico escravocrata do município ainda organiza a divisão social, econômica, política e cultural, e isso chega ao balcão das políticas públicas: é na escola, no posto de saúde e no equipamento de direitos humanos que a discriminação cotidiana se realiza — no atendimento abreviado, na dúvida sobre a palavra de quem fala, no encaminhamento que não se faz.

Os profissionais que operam essas políticas — professores, técnicos e profissionais de saúde — não recebem, na formação regular, repertório para reconhecer como raça, gênero, classe, território, religião, sexualidade e deficiência atravessam o atendimento que prestam. Direitos Humanos costumam ser tratados como assunto de especialista: quem não é da área não se vê convocado a discutir o tema, e quem é da área discute entre pares.

Falta, entre a denúncia e a norma, um espaço em que o profissional examine a própria posição — os privilégios de que dispõe e as exclusões que reproduz sem intenção — sem que o exame vire acusação e trave a conversa.

Construção da solução

O JPD surgiu, em 2023, da experimentação de uma atividade interventiva em Direitos Humanos, em uma disciplina de Psicologia na UFF, aplicada de estudante para estudante. Tornou-se projeto de extensão ainda em 2023, ancorado no Núcleo “Pluriverso UFF/Campos”, onde passou por validação, e desde 2024 aplicado em Políticas Sociais (Educação, Saúde, Direitos Humanos), com usuários e profissionais dessas políticas no município de Campos.

A escolha do jogo não é acessória. O tabuleiro permite que o profissional fale de si a partir de um personagem, o que baixa a defesa que o tema costuma levantar, e distribui a palavra por regra, sem depender de quem tem mais desenvoltura para falar em público.

Os elementos foram elaborados a partir de pesquisas prévias e validados em projeto-piloto no laboratório de pesquisa ao qual a extensão se vincula. O tabuleiro traz, em suas casas, situações do cotidiano que explicitam vivências geradas por discriminação ou por privilégio; as cartas apresentam personagens com seus marcadores sociais — gênero, raça, idade, etnia, território, classe, religião, sexualidade e deficiência.

A entrada nas políticas públicas veio pelas parcerias com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), a Subsecretaria de Igualdade Racial e Direitos Humanos (SIRDH), a Secretaria Municipal de Educação, Ciência e Tecnologia (SEDUCT) e a Escola de Formação de Educadores (EFEM). São elas que dão à atividade o lugar de formação continuada dos profissionais, e não de evento avulso.

A referência freireana está no desenho, e não no discurso: diálogo horizontal entre os participantes, problematização a partir de situações concretas e conscientização crítica de quem forma, não apenas de quem é formado.

Participação e apropriação

O conteúdo de cada aplicação não é definido de antemão: é o grupo que determina qual marcador ocupa o centro do debate. A mesma casa do tabuleiro abre uma discussão sobre racismo em uma escola e sobre transfobia em um ambulatório — as situações são as mesmas, o que se aprofunda depende de quem está jogando.

A construção da tecnologia, essa sim, ainda é da equipe universitária: situações e personagens vieram de pesquisa prévia e de validação em projeto-piloto, e a participação dos profissionais e usuários se concentra na aplicação e nas devolutivas. As contribuições de participantes já alteraram o JPD a partir das reflexões trazidas pelos próprios usuários, apontando alterações no tabuleiro e cartas, como palavras que não dispararam o tema esperado ou marcadores antes não presentes, como as deficiências ocultas.

A apropriação tem limite conhecido e caminho definido. A primeira aplicação é mediada pelos extensionistas: é vivencial e serve de modelo. Depois dela, os profissionais parceiros reaplicam o jogo em seus setores, com o material disponibilizado nas secretarias. A dependência é do primeiro encontro, não permanente.

Resultados e transformações

As 31 aplicações ocorreram entre o período de 2023 até o primeiro semestre de 2026, envolvendo 657 participantes de diferentes públicos e instituições. foram realizadas 31 aplicações do JPD, com 657 participantes, em escolas, serviços de saúde e equipamentos de direitos humanos de Campos dos Goytacazes/RJ. As aplicações ocorreram em parcerias com secretarias municipais de Direitos Humanos e Igualdade Racial, Saúde, e Educação. Foram: 4 aplicações na sede de Direitos Humanos, 3 no Ambulatório LGBTQIA+; 7 na Escola de Formação de Professores e em 3 escolas; também houveram 2 aplicações em ONGs e 1 em programa extensionista da própria UFF que atende idosos (UNIT UFF/Campos).

O que cada grupo levou para a mesa foram processos de exclusões decorrentes dos marcadores sociais: misoginia, racismo, elitismo, LGBTQIAP+fobia, gordofobia, intolerância religiosa e xenofobia foram os temas emergentes, variando conforme o serviço e o território. No campo escolar, sobretudo na parceria com a EFEM, o trabalho fortaleceu estratégias educativas voltadas à inclusão e à equidade. Na saúde, com aplicações mais frequentes no ambulatório LGBTIA+ municipal, concentrou-se no enfrentamento da transfobia, da misoginia e do machismo. Nos serviços de direitos humanos, nas violências que atingem a população negra.

A transformação mais direta é de posição: profissionais que não são da área de Direitos Humanos passaram a tratar raça, gênero, classe e território questões dentro da própria especialidade, e não como assunto de terceiros.

A experiência foi sistematizada em material didático próprio, apresentada em mais de dez eventos científicos locais, regionais e nacionais e premiada na Semana de Extensão da UFF em Campos.

Sustentabilidade e reaplicação

O custo é o do papel: tabuleiro, dado e cartas impressos em gráfica comum, sem equipamento nem licença. Isso torna a reprodução viável para qualquer secretaria, mas não resolve a manutenção: quem imprime a próxima tiragem, quem atualiza as cartas e quem forma novos mediadores são questões institucionais, não de orçamento. Materiais mantidos pelo Núcleo Pluriverso UFF/Campos, atualizado pela equipe, financiado pelo FOEX/UFF 2025.

A continuidade se apoia na parceria com a prefeitura, que abriga a atividade na formação continuada, e no reconhecimento, pelos profissionais, de que o jogo serve à sua prática.

Aos desafios assumidos corresponde uma estratégia: à dependência do mediador, a formação de multiplicadores e um Kit do Multiplicador (manual de aplicação, roteiro de mediação, perguntas disparadoras e ficha de avaliação); à dificuldade de medir efeito, a avaliação antes e depois; ao alcance restrito aos equipamentos, aplicações nos territórios. Estão previstos ainda uma cartilha educativa e ciclos participativos de atualização do jogo.

Reaplicar exige pouco: kit impresso, mediador formado na aplicação vivencial e grupo disposto a falar de si.

Projetos executados

Experiência de Tecnologia Social da UFF, importada do Portal TS. Situação: Em andamento. Período no catálogo: 2026. Local: campus Campos dos Goytacazes, RJ. Edital de origem: Edital de Chamamento 2026. ODS: 10 – Redução das desigualdades; 3 – Saúde e bem-estar; 4 – Educação de qualidade; 5 – Igualdade de gênero; 18 – Igualdade Étnico-Racial.

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